Variáveis Aleatórias e a Soberania de Deus – Parte Extra

Seguindo nossa postagem sobre variáveis aleatórias e Deus, aqui está um trecho de João Calvino acerca do assunto:

“Entretanto, uma vez que muito aquém da altura da providência de Deus se põe a lerdeza da mente, é preciso aplicar uma distinção que a soerga. Portanto, direi que, por mais que todas as coisas sejam ordenadas pelo conselho e firme dispensação de Deus, contudo para nós são meramente fortuitas. Não que pensemos que a sorte reja o mundo e os homens, e ao léu tudo faça girar para cima e para baixo, pois é preciso estar ausente do peito do cristão tal insipiência. Entretanto, uma vez que a ordem, a razão, o fim e a necessidade dessas coisas que acontecem jazem em sua maior parte ocultos no conselho de Deus e não são apreendidos pela opinião humana, essas coisas nos parecem fortuitas ainda que certamente procedam da vontade de Deus. Pois, quer consideradas em sua natureza, quer estimadas segundo nosso conhecimento e juízo, elas não exibem aparência diferente. 

Raciocínio idêntico vale em relação à contingência dos eventos futuros. Como todas as coisas futuras nos são incertas, por isso as temos em suspenso, como se houvessem de inclinar para um lado ou para outro. Entretanto, permanece não menos arraigado em nosso coração que nada haverá de acontecer que o Senhor já não o haja provido. Neste sentido, freqüentemente se repete no Eclesiastes o termo suceder, porque, à primeira vista, os homens não penetram à causa primária, a qual está oculta bem longe deles. E no entanto, o que nas Escrituras foi revelado da providência oculta de Deus nunca foi a tal ponto apagado que algumas centelhas não brilhassem sempre nas trevas. Assim, os augures dos filisteus, embora hesitem, incertos, contudo atribuem o fado adverso em parte a Deus, em parte à sorte: “Se a arca”, dizem eles, “houver de passar por aquele caminho, saberemos que é Deus que nos feriu; mas se, ao contrário, houver de ir pelo outro, o acaso é vindo sobre nós” [1Sm 6.9]. Sem dúvida estultamente os engana a adivinhação quando se refugiam no acaso. Não obstante, vemos como se vêem obrigados a não ousar a imputar simplesmente à fortuna a desgraça que lhes havia acontecido.

Ademais, transparecerá de notável exemplo como, pelo freio de sua providência, Deus verga todos os eventos para qualquer parte que o queira. Eis que, no preciso instante em que Davi foi encurralado no deserto de Maom, os filisteus fazem uma incursão na terra: Saul é obrigado a bater em retirada [1Sm 23.26, 27]. Se Deus, querendo garantir a segurança de seu servo, lançou este obstáculo diante de Saul, por certo que, embora de repente, além da expectação dos homens, os filisteus tomaram armas, não diremos, entretanto, ter sido isso feito pelo acaso; pelo contrário, o que nos parece contingência, a fé reconhecerá haver sido ordenação secreta de Deus.

É verdade que nem sempre se evidencia razão semelhante, mas, indubitavelmente, assim se deve entender que todas e quaisquer eventuações que se percebem no mundo provêm da operação secreta da mão de Deus. Todavia, o que Deus estatui certamente tem de acontecer, no entanto que não seja necessário, nem absolutamente, nem de sua própria natureza. Exemplo corriqueiro ocorre em relação aos ossos de Cristo. Uma vez que se revestiu de um corpo semelhante ao nosso, ninguém de são juízo negará que seus ossos fossem quebráveis. Contudo, era impossível que fossem quebrados. Do quê vemos de novo que nas escolas, não sem propósito, foram inventadas as distinções referentes à necessidade relativa e à necessidade absoluta; de igual modo, da necessidade conseqüente e da conseqüência, quando Deus sujeitou os ossos do Filho à fragilidade, os quais eximira de fratura, e desse modo restringiu o que poderia acontecer naturalmente à necessidade de seu desígnio.”

João Calvino – Institutas da Religião, Livro I , XVI -9

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Variáveis Aleatórias e a Soberania de Deus – Parte 2/2

No primeiro post, estudamos um pouco a história do interesse humano nos  “eventos do acaso”, vimos as interpretações que foram dadas a eles e como as novas descobertas (principalmente na Mecânica Quântica) tem mudado toda a concepção acerca da realidade do universo.

Agora, iremos tratar das possíveis interpretações cristãs que conectam a Soberania de Deus aos eventos do acaso. Comecemos por William Pollard:

O acaso e a providência

Uma década antes, William Pollard, um físico nuclear e clérigo cristão, tratou do problema da aleatoriedade no universo a partir de uma perspectiva cristã. Suas ideias foram publicadas no livro Chance and Providence. Como cientista, ele havia sido treinado para ver o mundo de forma objetiva. Como cristão, acreditava que Deus agia de forma providencial nos eventos da história. Portanto, ele lutava com o problema intelectual de reconciliar essas visões aparentemente contraditórias.

Pollard rejeita a noção de um universo determinista. Conforme suas próprias palavras, “o acaso parece ser essencial para o conhecimento científico, não por causa de alguma espécie de insuficiência temporária da ciência, mas porque o mundo que a mesma investiga é feito dessa maneira.”  [1]

Apesar de o acaso e a providência parecerem contraditórios, Pollard vê o primeiro como o veículo através do qual a providência de Deus pode ser manifesta. “O mesmo evento pode ser igualmente considerado como debaixo de todas as leis da natureza e da causalidade natural ao mesmo tempo que se encontra debaixo da vontade divina. A razão é que as leis da natureza descrevem apenas as chances (ou probabilidades) do evento acontecer sob um determinado conjunto de circunstâncias… O que é chamado de acaso em um determinado contexto pode em outro contexto (e sem contradição alguma) manifestar a vontade de Deus ao agir em juízo ou redenção.” [1]

Sua conclusão é então a seguinte: “A resposta judaico-cristã para a famosa pergunta de Einstein ‘Deus joga dados?’ não é, como muitos erroneamente supoem, uma negação, mas um sim bem definitivo. Pois apenas em um mundo onde as leis da natureza governam os eventos de acordo com o lançamento do dado é que a visão bíblica do mundo, cuja história é dependente da vontade de Deus, irá prevalecer.” [1, pg. 97]

Provavelmente teístas-abertos, arminianos e até mesmo molinistas podem simpatizar com essa resposta. Pessoalmente eu não gosto muito dela.  A principal razão porque não me agrada é que Pollard descarta muito facilmente a causalidade sem se preocupar (ao menos aparentemente) com as consequências.

Vamos partir então para a próxima interpretação:

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Variáveis Aleatórias e a Soberania de Deus – Parte 1/2

Introdução

Será que as variavéis aleatórias (presentes na Teoria de Probabilidade e na Estatística) são apenas modelos criados por matemáticos para explicar fenômenos presentes no mundo que até então não possuem explicação ou será que elas são análogos matemáticos de eventos presentes no mundo real que possuem natureza verdadeiramente aleatória?

Como um cristão com formação em exatas, eu sempre tive um grande interesse em relacionar a questão de eventos aleatórios com a Soberania de Deus. Nesses dois posts, tentarei mostrar um pouco da origem histórica do conflito entre os conceitos de probabilidade e da providência divina. Depois, irei discutir um pouco as evidências a favor da realidade probabilística do universo, terminando então com algumas perguntas e observações concernentes a elas.

Uma perspectiva histórica


O interesse nos chamados “eventos de probabilidade” parece ser tão antigo quanto a história registrada do homem. Existem evidências de que jogos de sorte eram feitos no Egito em torno de 3500 a.C. Igualmente antiga é a prática de sortilégio, isto é, o uso de dispositivos aleatórios para fazer perguntas os deuses. Quatro, ou talvez cinco, astrálagos eram usados nos templos gregos e romanos para adivinhar a vontade dos deuses. Sorteio era uma forma comum de sortilégio, descrito tanto na história bíblica quanto na secular.

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