Variáveis Aleatórias e a Soberania de Deus – Parte 1/2

Introdução

Será que as variavéis aleatórias (presentes na Teoria de Probabilidade e na Estatística) são apenas modelos criados por matemáticos para explicar fenômenos presentes no mundo que até então não possuem explicação ou será que elas são análogos matemáticos de eventos presentes no mundo real que possuem natureza verdadeiramente aleatória?

Como um cristão com formação em exatas, eu sempre tive um grande interesse em relacionar a questão de eventos aleatórios com a Soberania de Deus. Nesses dois posts, tentarei mostrar um pouco da origem histórica do conflito entre os conceitos de probabilidade e da providência divina. Depois, irei discutir um pouco as evidências a favor da realidade probabilística do universo, terminando então com algumas perguntas e observações concernentes a elas.

Uma perspectiva histórica


O interesse nos chamados “eventos de probabilidade” parece ser tão antigo quanto a história registrada do homem. Existem evidências de que jogos de sorte eram feitos no Egito em torno de 3500 a.C. Igualmente antiga é a prática de sortilégio, isto é, o uso de dispositivos aleatórios para fazer perguntas os deuses. Quatro, ou talvez cinco, astrálagos eram usados nos templos gregos e romanos para adivinhar a vontade dos deuses. Sorteio era uma forma comum de sortilégio, descrito tanto na história bíblica quanto na secular.

A Igreja Cristã parece ter um registro irregular quando se trata de sorteios. Em Atos 1:26, os discípulos substituíram Judas através de um. John Wesley, por exemplo, costumava sortear versos bíblicos quando se sentia afligido. [1] Por outro lado, a Igreja logo cedo tomou uma posição forte contra apostas e sortilégios (provavelmente porque tais métodos eram parte integral da vida e adoração pagã). O conceito de aleatoriedade foi rejeitado pelos cristãos (ao menos na época de Agostinho). Agostinho acreditava que nada acontecia por acaso, sendo tudo minuciosamente controlado por Deus. Se os eventos tinham a aparência de ser aleatórios, seria por causa da ignorância do homem e não por causa da natureza dos eventos. Minha experiência sugere que essa visão representa a maioria dos cristãos de hoje. No entanto, falta a essa mesma maioria de cristãos (assim como à maioria da população em geral), o conhecimento das descobertas científicas que quebraram a concepção determinista da Ciência ainda no início do século XX. Portanto, comecemos a tratar dos eventos probabilísticos na natureza.

O acaso na natureza

Alguns argumentam que o resultado do lançamento de um dado, por exemplo, não seja algo probabilístico, mas sim determinado pelas condições de contorno iniciais, e que só atribuímos a natureza probabilística a esse resultado porque não temos conhecimento dessas condições. Apesar de isso poder ser verdade, não é algo que se possa testar de forma empírica, já que, se existe uma quantidade absurda de variáveis, a mudança em qualquer uma delas, apesar de ser suficiente para produzir uma mudança no resultado, seria muito pequena para ser detectada dentro do intervalo de erro experimental. As evidências experimentais certamente suportam a suposição de que o resultado do lançamento de um dado seja realmente aleatório.
Na época de Laplace, as leis da física, que hoje conhecemos por Mecânica Clássica, eram tão precisas em prever os resultados dos sistemas que tratava, que ele estava convencido de que elas se aplicavam de forma exata a todo o universo. De fato, ele afirmou que caso existisse um “demônio matemático” capaz de dar a posição e velocidade de cada uma das partículas presentes no universo em um determinado instante, ele poderia especificar o estado exato do universo em qualquer momento posterior. É importante notar que essa conclusão não se baseia na existência do tal demônio mas na suposição de um determinismo completo.

Essa visão foi completamente destruída no começo do século XX pelo princípio da incerteza de Heisenberg e pelo desenvolvimento da Mecânica Quântica. Uma partícula atômica ou sub-atômica (como um elétron), não se comporta como uma bola de sinuca idealizada pela Mecânica Clássica. A bola de sinuca irá percorrer o mesmo caminho se for atingida sempre da mesma maneira por um taco. No entanto, na Mecânica Quântica, tudo o que você pode prever é um conjunto de estados possíveis que o elétron pode estar, cada um com uma certa probabilidade. Não existe nenhum jeito de saber qual estado o elétron vai estar, logo, é um evento totalmente aleatório.

A Mecânica Quântica afirma que é impossível saber simultaneamente a posição e o momento de uma partícula. Vale lembrar que esse princípio da incerteza não é algo que decorre da nossa ignorância em relação as possíveis variáveis e nem decorre da limitação dos equipamentos que temos hoje, mas algo que está estritamente conectado a natureza do evento em si. Isso, é claro, destroi a visão determinista de Laplace, já que seu “demônio” não poderia ter todas a condições iniciais necessárias para começar seus cálculos.

É importante destacar o fato de que a Mecânica Quântica já foi verificada de diversas maneiras por métodos experimentais (a desigualdade de Bell sendo um dos mais famosos), conseguindo descrever e prever de forma precisa os fenômenos físicos. Será que isso significa que, em sua base mais fundamental, o nosso mundo seja essencialmente aleatório? A reação instantânea de Einstein às obras de Heisenberg foi expressa na famosa frase “Deus não joga dados“. Por outro lado, William Pollard, um físico nuclear, diz: “Gostando ou não, parece que temos um universo onde a incerteza e o acaso são aspectos reais da natureza fundamental das coisas, e não simplesmente uma consequência do nosso entendimento provisório e inadequado“. [2]
O decaimento radioativo, a turbulência em um fluxo de fluidos, as mutações genéticas, a determinação do sexo, entre muitas outras coisas parecem mostrar que a natureza, de fato, funciona de uma maneira aleatória. Levinson diz o seguinte: “Seções inteiras da astronomia e da física estão cheias de estatística, e isso acontece não porque os físicos gostem de estatística, mas porque parece que a natureza gosta“. [3]

Tendo em mente as evidências de que, de fato, alguns eventos da natureza parecem ter, em sua essência, uma natureza probabilística, podemos fazer a seguinte pergunta: “Como conciliar a Soberania e Onisciência de Deus com os eventos probabilísticos?

Antes de tratá-la, veremos a posição ateísta na seguinte seção:

O acaso e a necessidade

Jacques Monod, um biólogo francês ganhador do prêmio Nobel, é famoso por propagar a filosofica de um universo sem causalidade. Ele rejeita todo e qualquer propósito no universo e apesar de admitir um caráter teleonômico dos organismos vivos, explica isso em termos completamente mecanicistas.

Monod vê dois princípios básicos que funcionam em conjunto para produzir um ser vivente. O primeiro é o que chamamos de acaso, pelo qual todas as inovações ocorrem. E o outro é a invariância genética que reproduz fielmente a célula outra e outra vez. Sua posição (ou podemos chamar até de fé) é expressa na seguinte declaração: “… o acaso apenas está na fonte de toda inovação, de toda a criação na biosfera. O acaso puro, absolutamente livre (mas cego), está na raiz de toda a evolução: esse conceito central da biologia moderna não é apenas mais uma entre várias hipóteses possíveis. É a única hipótese concebível, a única que se enquadra com os fatos testados e observados. E nada garante a suposição (ou até mesmo a esperança) de que nossa posição irá ser revista algum dia“. [4]

Obviamente, por mais que sejam verdadeiras as evidências de aleatoriedade nas mutações genéticas e em outros fenômenos do universo, a conclusão de que o mesmo não tem propósito algum não é, de maneira nenhuma, uma consequência lógica disso. Para analisar a aleatoriedade sob uma perspectiva cristã, iremos começar com a visão de William Pollard na próxima parte.

Aguardem o próximo post.

Referências:

1 – Works of the Rev. John Wesley, Vol. 5 edited by John Emory and B. Wagh, N. Y., 1831. Pg. 316.

2 – Pollard, W. G., Chance and Providence, Faber, London, 1958. Pg. 54.

3 – Levinson, H. C., Chance, Luck and Statistics, Dover, N. Y., 1963. Pg. 3.

4 –  Monod, J., Chance and Necessity, Vintage, N. Y., 1972. Pg. 112.

Escrito por: Erving Ximendes

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2 comentários em “Variáveis Aleatórias e a Soberania de Deus – Parte 1/2

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