Seriam as afirmações de nova revelação compatíveis com o Cânon do NT?

Deus falou comigo“.

Existem poucas declarações que podem encerrar um debate tão rapidamente como essa. Se os cristãos discordam sobre uma doutrina, uma prática ou uma ideia, em seguida, a grande carta na manga costuma ser “Deus falou comigo acerca disso“. Fim da discussão.

Mas, a história da igreja (para não mencionar as próprias Escrituras) demonstra que tais reivindicações de revelações privadas e diretas são altamente problemáticas. Claro, isso não significa que Deus não fala com as pessoas. A Escritura está cheia de exemplos disso. Mas essas pessoas geralmente eram indivíduos com uma vocação fora do comum (por exemplo, profeta ou apóstolo), ou então estavam presentes em um período único na história da redenção (por exemplo, a igreja primitiva em Atos).

Depois do fim do primeiro século, com os apóstolos já mortos, a igreja rejeitou amplamente a ideia de que qualquer pessoa poderia dar um passo a frente e afirmar ter uma revelação direta de Deus. Essa realidade é provavelmente melhor exemplificada no debate da igreja cristã primitiva sobre o Montanismo.

O Montanismo foi um movimento do século II cujo líder, Montano, afirmava receber revelações diretas de Deus. Além disso, duas de suas “profetisas”, Priscila e Maximila, também alegavam recebê-las. As revelações eram muitas vezes acompanhadas de um comportamento estranho. Quando Montano as tinha, “[Ele] se tornava obcecado, e de repente caia em convulsões e frenesi. Ele começava a ficar extático e a falar estranhamente “(Hist. Ecl. 5.16.7).

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Ireneu e o Dom de Línguas

O dom de línguas de acordo com o padre da Igreja do segundo século, Ireneu.

Ireneu, de acordo com a Wikipedia “foi um bispo cristão de Lugdunum na Gália, na época, uma parte do império romano (agora Lyon, na França). Ele foi um padre e apologista da igreja primitiva, seus escritos foram fundamentais no início do desenvolvimento da teologia cristã. Ele foi um discípulo de Policarpo, que, conforme nos é dito, era um discípulo de João, o Evangelista“.

As seguintes traduções para o inglês (que aqui foram traduzidas para o português) podem ser encontradas no site New Advent , que tem uma reprodução digital dos livros dos Padres Ante-Nicenos pela Christian Publishing Company de 1885. (As traduções não foram postas à prova contra os textos em grego ou latim).

Contra Heresias (Livro 3, Capítulo 12:1)

“Quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos, para que todos pudessem profetizar e falar em línguas, e alguns zombavam deles como se os discípulos estivessem embriagados com vinho novo, Pedro disse que eles não estavam embriagados, pois ainda era a terceira hora do dia; ao invés, isso que acontecia era o que tinha sido dito pelo profeta: E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e profetizarão (Joel 2:28 ). O Deus, pois, que fez a promessa, pelo profeta, de que Ele enviaria Seu Espírito sobre toda a raça humana, foi quem, de fato, enviou; e o próprio Deus é anunciado por Pedro como tendo cumprido a própria promessa.”

Contra Heresias (Livro 3, Capítulo 17:2)

Esse Espírito que Davi pediu para a raça humana, dizendo: E estabeleça-me com o Teu Espírito que predomina; que também, como diz Lucas, desceu no dia de Pentecostes sobre os discípulos após a ascensão do Senhor, tendo poder de admitir todas as nações para a entrada da vida, e para a abertura da nova aliança; de onde também, com uma harmonia em todas as línguas, eles proferiram louvor a Deus, o Espírito trazendo tribos distantes à unidade, e oferecendo ao Pai as primícias de todas as nações. Por isso também o Senhor prometeu enviar o Consolador, João 16:7, que deve nos juntar a Deus.

Contra Heresias (Livro 5, Capítulo 6:1)

Por esta razão, o apóstolo declara, falamos sabedoria entre aqueles que são perfeitos, 1 Coríntios 2:6, denominando perfeitos aqueles que receberam o Espírito de Deus, e que, pelo Espírito de Deus falam em todas as línguas, como  Ele mesmo também costumava falar. Da mesma maneira, nós também ouvimos muitos irmãos na Igreja, que possuem dons proféticos, e que por meio do Espírito falam todos os tipos de línguas, e trazem à luz coisas ocultas aos homens para o benefício geral, e declaram os mistérios de Deus, a quem também o apóstolo denomina espiritual, sendo eles espirituais porque eles participam do Espírito, e não porque sua carne foi retirada e levada embora e assim tornaram-se puramente espirituais.

É evidente aqui, a partir de seus escritos, que o dom de línguas era a capacidade de falar em uma língua estrangeira. O objetivo do dom era levar todos os povos e nações a uma harmonia.

Pentecostalismo e um novo tipo de Línguas

Como a definição Pentecostal de línguas estranhas mudou no começo do século XX

O professor e escritor Gary B. McGee, da Assembléia de Deus, apresentou uma descrição bem detalhada sobre o desenvolvimento e a evolução da Doutrina de Línguas Estranhas dentro movimento Pentecostal. O estudo pode ser encontrado aqui: “Shortcut to Language Preparation? Radical Evangelicals, Missions, and the Gift of Tongues”

É um artigo bem pesquisado e com fontes muito bem fundamentadas. Um dos trabalhos mais definitivos que podemos achar se tratando do dom de Línguas a partir do início do século XX.

Ele cita os líderes mais importantes no movimento moderno de línguas, e como a ênfase original do movimento estava na aquisição sobrenatural de línguas estrangeiras. Esta aquisição mística era esperada como uma solução para o problema que o tempo de aprendizagem de línguas apresentava (pois, era um processo longo) e, portanto, seria uma barreira para uma rápida expansão missionária pelo mundo.

Isto levou a um sério dilema teológico, pois a aquisição milagrosa das linguagens não estava acontecendo. Logo, ou o movimento pentecostal como um todo admitia que estava errado, ou eles teriam que redefinir a experiência de falar em línguas. Qual opção eles escolheram? A última, é claro.

O professor McGee admite que em algum lugar entre 1906 e 1907, a doutrina de línguas tinha mudado, sendo antes entendida como a aquisição espontânea da linguagem, e depois como uma forma de adoração e intercessão no Espírito:

“Sem surpresas, embora os relatos de idiomas estrangeiros sendo falados pelos crentes tivessem o potencial de serem verificadas empiricamente, esses relatos testavam severamente a credulidade dos observadores externos. Provou-se então difícil encontrar testemunhos em que pentecostais pregando nos idiomas recém-descobertos pudessem ser entendidos pelos seus ouvintes. Entre o final de 1906 e o início de 1907 os evangélicos radicais começaram a rever as Escrituras para obter uma melhor compreensão. A maioria veio a reconhecer que o falar em línguas constituía uma forma adoração e intercessão no Espírito (Rm 8:26; I Cor. 14: 2.), O que, por sua vez, fornecia ao crente poder espiritual. Como em ambas as opções (a glossolalia para falar eficazmente numa língua estrangeira ou para o culto pessoal e espiritual) a noção de receber línguas refletia zelo e capacitação para o evangelismo, a maioria dos pentecostais parecia ter aceito a mudança de significado.”

É surpreendente ver que um professor da Assembléia de Deus admitiu isso, embora muito suavemente.

Infelizmente, ele não conseguiu entrar em detalhes sobre a real causa responsável por esta mudança, e como ela se tornou um dogma arraigado em um período tão curto de tempo.

Autor: Charles Sullivan
Traduzido por Erving Ximendes