Pequenos detalhes que todo cristão deveria saber – Parte 2

Seguindo nossa série de posts, dessa vez trataremos, através de uma adaptação de um artigo produzido pelo Dr. Michael Kruger, da questão da compilação do Cânon do Novo Testamento.

Ao investigar esse assunto, os estudiosos gostam de destacar a primeira vez que encontramos uma lista completa de 27 livros. Sem nenhuma surpresa, a lista contida na famosa Carta Pascoal (367 d.C) de Atanásio é mencionada como a primeira vez que algo assim aparece na história da Igreja Cristã.

Como resultado, frequentemente ouvimos que o Novo Testamento foi um fenômeno tardio e que os cristãos não possuíam o Novo Testamento até o final do quarto século. No entanto, esse tipo de raciocínio é problemático em vários níveis. Em primeiro lugar, nós não avaliamos a existência do Novo Testamento apenas através da existência de listas. Se examinamos a maneira que certos livros foram usados pelos pais da igreja primitiva, fica evidente que existia um cânon operante muito antes do quarto século. De fato, lá pelo segundo século já existe uma coleção central de livros do Novo Testamento funcionando como Escrituras.

Em segundo lugar, existem razões para acreditar que a lista de Atanásio não é a mais antiga lista completa que possuímos. O Dr. Michael Kruger argumenta que, por volta de 250 d.C., Orígenes produziu uma lista completa contendo os 27 livros do Novo Testamento (mais de 100 anos antes de Atanásio). Em sua maneira tipicamente alegórica, Orígenes usou a história de Josué para descrever o cânon do Novo Testamento:

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A pena de morte e o NT

É extremamente claro que o Velho Testamento, de fato, ordenava a pena de morte como parte da justiça penal em um mundo caído. A vida humana é tão valiosa para o Senhor que aquele que tira a vida de um inocente deve perder a sua como consequência.

Mas será que a vinda de Jesus e o surgimento do Novo Testamento mudou isso? Muitos cristãos acham que a pena de morte é errada, pelo menos segundo os padrões do Novo Testamento, e que os crentes de hoje não devem seguir qualquer coisa que o Antigo Testamento tenha dito sobre isso. Será que eles estão certos? Será que os ensinamentos de Jesus significam o fim da pena de morte?

Antes de tudo, uma palavra sobre o método teológico. Um dos maiores debates que ocorre entre os estudiosos da Bíblia trata da relação entre os Testamentos. Esse debate tem sido especialmente destacado nos últimos tempos, e também criou uma discussão muito longa durante a história da igreja.

A questão realmente se resume a isto: Existe ou não existe continuidade entre os Testamentos? A resposta curta é dizer que sim e que não. Algumas coisas contidas no Antigo Testamento certamente parecem transitar para o Novo (como a realidade do pecado, o amor e a preocupação de Deus para com a humanidade, etc). Essas são constantes presentes nas Escrituras.

Outras coisas parecem ter sido interrompidas. Por exemplo, as várias leis dietéticas dadas à nação de Israel, e certas práticas religiosas, tais como o sacrifício de animais, parecem não estar em vigor na época do Novo Testamento. Na verdade, as questões relacionadas a como devemos entender a lei mosaica hoje (qual é a sua finalidade e função para a igreja e quais aspectos são transitados para o Novo Testamento) também estão ligados a toda essa discussão.

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Apócrifos e Cânon no Cristianismo Primitivo

Uma das afirmações mais repetidas pelos críticos do Cânon do NT é a afirmação de que os apócrifos, e em especial os evangelhos apócrifos, eram tão comuns e tão utilizados quanto os escritos do Novo Testamento. Helmut Koester é um bom exemplo dessa tendência. Ele lamenta o fato de que os termos “apócrifo” e “canônico” ainda sejam usados pelos estudiosos modernos, porque, segundo ele, esses termos estão relacionados a “preconceitos de longa data” contra a autenticidade dos textos apócrifos. [1] Koester, em seguida, argumenta: “Se considerarmos o período mais antigo da tradição, veremos que vários evangelhos apócrifos são tão atestados quanto aqueles que mais tarde receberam o status de canônico“. [2] William Petersen oferece uma abordagem semelhante quando diz que os evangelhos apócrifos eram tão populares que “estavam se multiplicando como coelhos“. [3]

Mas será que é realmente verdade que os evangelhos apócrifos foram tão populares e difundidos quanto os Evangelhos canônicos? Eles estavam realmente em pé de igualdade? Três conjuntos de evidência sugerem o contrário:

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Conversa entre Jesus e Pilatos

Objeção cética: Como é que os escritores do Evangelho poderiam saber o conteúdo da conversa privada entre Jesus e Pôncio Pilatos, sendo que isso aconteceu pouco antes de sua crucificação (João 18:28-40)?

Algumas pessoas tentam justificar sua descrença no cristianismo com o argumento de que a Bíblia contém dificuldades e contradições irreconciliáveis. Um amigo cético recentemente me perguntou como os escritores do Evangelho poderiam saber a natureza da conversa privada que Jesus teve com Pôncio Pilatos. Afinal de contas, os apóstolos não estavam a par deste diálogo confidencial. Existem duas explicações para esta objecção, uma puramente natural e a outra sobrenatural (ou teológica), mas as duas não são mutuamente exclusivas.

Em primeiro lugar, dada a natureza da grande controvérsia em Jerusalém acerca de Jesus de Nazaré e seu julgamento público pelos romanos (Lucas 24:13-24), Pilatos pode simplesmente ter falado com outras pessoas sobre o conteúdo de sua conversa com Jesus. Esses detalhes verbais podem ter sido transmitidos a outros líderes romanos e/ou aos líderes religiosos judeus e, posteriormente, para os seguidores de Jesus. Vale lembrar que Jesus também tinha seguidores secretos tanto dentro da liderança romana (Centurião, Mateus 8:5-13) e judaica (Nicodemus, João 3:1-15).

Sem dúvida, os apóstolos estavam interessados em todos os detalhes concernentes a prisão, julgamento e a posterior execução de Jesus. Não é difícil imaginar como o conteúdo desta conversa pode ter vazado, especialmente para as pessoas-chave envolvidas nos eventos. Embora as pessoas hoje possam argumentar que isso é “boato”, os antigos não diriam a mesma coisa. Eles podem muito bem ter interpretado isso como um outro detalhe importante transmitido por fontes confiáveis relacionadas ao julgamento público e a crucificação de Jesus. Além disso, se os detalhes dados acerca dessa suposta conversa fossem factualmente falsos, os críticos hostis (que também podem ter sido informados sobre a natureza exata dessa conversa) poderiam simplesmente desmentí-los.

Em segundo lugar, o conteúdo desta conversa privada entre Jesus e Pilatos pode ter chegado aos autores dos Evangelhos através do processo de inspiração divina. No Evangelho de João, capítulos 14-16, Jesus informou aos apóstolos que o Espírito Santo viria a orientá-los, informá-los, e dar-lhes recordação exata dos acontecimentos verídicos sobre a vida, morte e ressurreição de Jesus. Considere estas duas afirmações bíblicas sobre o papel do Espírito Santo ao inspirar os autores bíblicos:

Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. (João 14:26)

Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. (João 16:13)

Biblicamente falando, a inspiração divina poderia servir para dar aos apóstolos novas informações ou para confirmar a verdade de informações retiradas de outras fontes. Portanto, a partir da perspectiva cristã, ambas estas explicações podem estar corretas.