Pequenos detalhes que todo cristão deveria saber – Parte 1

Essa série de posts terá o propósito de apresentar detalhes que passam desapercebidos ou são desconhecidos por grande parte dos cristãos mas que tem uma influência muito grande na eficácia de argumentos na apologética. Nesse primeiro post iremos tratar de um detalhe útil nas discussões com arianos e antitrinitarianos em geral. Ele é conhecido como a regra de Granville Sharp

No Grego Koiné existe uma regra gramatical simples, porém muito importante, que está diretamente relacionada à Divindade do Senhor Jesus Cristo conforme exposta nas Escrituras: a regra de Granville Sharp. Ela basicamente lida com o sentido de passagens como Tito 2:13 e 2 Pedro 1:1, cujas traduções são deturpadas por grupos antitrinitarianos. Sendo assim, acreditamos que todo cristão deve estar informado a respeito desse assunto (ainda que de maneira breve).

A regra de Granville Sharp afirma que caso encontremos dois substantivos descrevendo uma pessoa (que não sejam substantivos próprios como Paulo, Silas ou Timóteo) e eles estejam ligados pelo conectivo “e”, com o primeiro apresentando o artigo (“o”) e o segundo não, então ambos substantivos estarão se referindo à mesma pessoa. Isso é exemplificado em nossos textos pelas palavras “Deus” e “Salvador” em Tito 2:13 e 2 Pedro 1:1:

… enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo.” (Tito 2:13)

Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, àqueles que, mediante a justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam conosco uma fé igualmente valiosa” (2 Pedro 1:1)

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João Capítulo 6 – James White

Nota do tradutor:

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Se esse é o caso, então João 6 é certamente o golpe de misericórdia. Nesse fascinante comentário elaborado pelo Dr. James White, temos a refutação de duas ideias errôneas (porém bastante distintas) que se propagaram no Cristianismo: a transubstanciação e a depravação parcial do homem.

Tendo em vista que essa é uma leitura extremamente detalhada (e, portanto, longa) do Capítulo 6 de João, irei fornecer também um link contendo o comentário em questão em um arquivo PDF (Joao Cap 6 – James White). Assim como o autor, eu espero que esse comentário seja útil para os crentes do Brasil e que ele ajude a Igreja brasileira a buscar um material teológico são.

Erving Ximendes


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Ateísmo, Amoralismo e Não-racionalismo

Ateísmo e Amoralismo

Em Abril de 2010, o eticista Joel Marks sentou-se em frente ao seu computador e escreveu uma confissão para os leitores da coluna “Moral Moments” na revista Philosophy Now. Sua confissão dizia que ele tinha feito algo imoral. Sua confissão era que ele não poderia ter feito qualquer coisa imoral, em qualquer momento de sua vida, pois não exista coisa como a moralidade. Ou, ao menos, isso foi o que ele concluiu. O autor de “Moral Moments” saiu do armário como uma “amoralista ‘. Como ele mesmo coloca na primeira parte do seu “Manifesto Amoral”:

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Razões para rejeitar o inclusivismo (Parte 1)

Os defensores da visão conhecida como inclusivismo argumentam que, embora ninguém seja salvo fora da obra redentora de Jesus, não é necessário ter conhecimento sobre o evangelho ou crer em Jesus para a salvação. O inclusivismo elimina o problema de que aqueles que não ouviram o evangelho não serão salvos, mas isso de maneira alguma significa que o inclusivismo é verdadeiro ou bíblico. Paulo, de fato, ensinou em Romanos 1-3 que apesar do conhecimento geral sobre um Criador estar disponível a todos através da luz da criação, esse conhecimento não traz salvação. Apenas a revelação especial sobre Deus, sobre o pecado, sobre Jesus e a salvação dada aos profetas e apóstolos e que està registrada na Bíblia fornece as informações necessárias para a salvação. Os inclusivistas afirmam que o conteúdo da fé não é crucial e que os não-evangelizados podem até ser salvos praticando suas religiões não-cristãs. No entanto, Paulo fala em Romanos 10:9-10 que um conhecimento de informação verdadeira faz parte da fé salvadora. Paulo também fala claramente que nem ele nem as pessoas incrédulas a quem ele pregou foram salvos antes de acreditar em Jesus Cristo.

Os inclusivistas argumentam que, se Deus salva os bebês e os que tem problemas mentais, que morrem sem nunca ter tido fé em Jesus, então Ele pode salvar aqueles que não foram evangelizados. Este ponto de vista, no entanto, ignora o fato de que os não-evangelizados são responsáveis por seus pecados, enquanto que os bebês e os deficientes mentais não são. Os inclusivistas também tentam apontar para os crentes do Antigo Testamento como exemplo de pessoas salvas que não tinham conhecimento sobre Jesus, mas só porque eles não tinham esse conhecimento explícito não significa que eles não tinham nenhuma outra revelação especial (como os não-evangelizados).

A visão inclusivista de que aqueles que nunca ouviram o evangelho serão salvos tem um impacto negativo sobre as missões cristãs. À luz destes e de outros problemas, o inclusivismo não deve ser considerado uma opção viável aos cristãos.

A grande maioria dos cristãos evangélicos sustentam a opinião de que a crença em Jesus é necessária para a salvação. Esse ponto de vista, conhecido como exclusivismo, pode ser resumido em quatro proposições: (1) Jesus é o único Salvador; (2) a fim de serem salvos, os seres humanos devem saber que eles são pecadores que precisam de salvação e perdão; (3) a fim de serem salvos, os seres humanos também precisam saber quem é Jesus e que Sua morte e ressurreição fornecem a base para essa salvação; e (4) os seres humanos devem colocar sua fé e confiança em Jesus como o único Salvador. Os dois textos seguintes tipificam as muitas passagens bíblicas que indicam que o conhecimento sobre (e a fé em) Jesus são essenciais para a salvação: (1) “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” (Romanos 10:9,10); (2) “Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus“(João 3:17,18). Não há outro Salvador além de Jesus, e nenhuma outra religião além do cristianismo bíblico que possa levar os seres humanos até a graça salvadora de Deus.

[…] Se o inclusivismo é verdade, ele elimina um problema que preocupa muitos cristãos: E aquelas pessoas que morrem sem nunca terem ouvido o evangelho? Pense na responsabilidade que é tirada das nossas costas quando adotamos essa visão. Pense no quão mais fácil podemos dormir à noite. No entanto, como cristãos pensantes, reconhecemos que só porque o inclusivismo torna a vida mais fácil ou elimina um problema intrigante, isso não significa que ele seja verdade. Sabemos, sim, que (1) um sistema de crença verdadeiro deve concordar com as Escrituras e (2) que ele deve ser coerente e logicamente consistente. Será que o inclusivismo passa nesses dois testes? Vamos começar a nossa investigação, olhando para o que o inclusivismo tem a dizer sobre o conhecimento.

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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 3)

[Esse será o terceiro post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série involuntariamente e lamentavelmente esporádica, eu estive considerando a pergunta: O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo? No primeiro post eu argumentei que a Bíblia afirma (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus acerca dos contrafactuais de liberdade da criatura (isto é, o conhecimento acerca do que qualquer agente criado irá livremente fazer se colocado em determinadas circunstâncias), mas o Molinismo não possui nenhuma vantagem sobre o Agostinianismo no que diz respeito a (1) e (2). Eu concluí com a seguinte afirmação:

Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p)“.

No segundo post eu examinei um candidato para a proposição p: a proposição de que a liberdade moral é incompatível com o determinismo (uma coisa que os molinistas invariavelmente afirmam, mas que os agostinianos normalmente negam). Cheguei à conclusão de que a Bíblia não oferece suporte para o incompatibilismo. Neste post eu vou considerar um segundo candidato a proposição p: a proposição de que Deus deseja que todos sejam salvos.

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Dispensacionalismo – Um retorno às sombras

O problema com a interpretação dispensacionalista do milênio tem a ver com a forma como se deve entender o fluxo geral da história da redenção. Ao longo do Antigo Testamento, cada profeta de Israel descreveu a vinda da era messiânica em termos de sua própria época e lugar. O que é especialmente relevante nessa questão é o fato de que os profetas falavam da gloriosa era messiânica que estava por vir em termos dos tipos e sombras associados à antecipação messiânica veterotestamentária.
Mas os tipos e sombras do Antigo Testamento são posteriormente reinterpretados sob a maior luz resultante da encarnação de Cristo no Novo Testamento. É por isso que um dos principais aspectos da escatologia da era do NT é que o que foi prometido no AT havia sido cumprido em Jesus Cristo. O padrão redentivo-histórico move-se claramente na direção tipo-sombra para cumprimento/realidade. Sendo esse o caso, os autores do Novo Testamento antecipam a consumação final das promessas na volta de nosso Senhor e não num retorno a um governo terreno entendido em termos de tipos do Antigo Testamento e sombras que estavam destinadas a passar de uma vez por todas.

Por exemplo, quando os profetas falam da restauração de Israel, o Novo Testamento afirma que esta promessa de restauração se realiza em Jesus Cristo, o verdadeiro Israel (para uma discussão mais detalhada clique aqui: Jesus Christ, the true Israel). Quando os profetas falam da terra de Canaã, a cidade de Jerusalém e o monte do Senhor, os autores do Novo Testamento, por sua vez, apontam que estes temas são cumpridos em Cristo e sua igreja. Em muitos casos, eles fazem isso como uma polêmica contra os judeus que não aceitaram Jesus como o Messias de Israel, enviado por Deus para redimir o Seu povo dos seus pecados. A interpretação literal das passagens messiânicas do Antigo Testamento é fornecida pelo Novo Testamento. Portanto, a expectativa profética do AT não deve ser a base para uma compreensão escatológica do NT.

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Devemos ler apenas a tradução ACF? – Parte 2

No post anterior vimos como os crentes de Cártago defendiam, por pura tradição, a Septuaginta. No texto de hoje iremos notar que a controvérsia se repetiu aproximadamente 1100 anos depois quando a tradução de Jerônimo, mais conhecida como Vulgata, se tornou o padrão na Europa.

No começo do século XVI, a Vulgata era a Bíblia de “todos” e havia tomado a mesma posição que a Septuaginta possuía na mente dos cristãos um milênio atrás. Da mesma maneira que Jerônimo se meteu em problemas com sua “nova” tradução, um grande acadêmico veio novamente a causar tumulto. Esse homem era Desidério Erasmo.


Erasmo de Roterdã, escritos holandês.

Erasmo é conhecido hoje como o “Príncipe dos Humanistas”. No entanto, devemos ter cuidado com o termo “humanista” aqui. Erasmo não era de maneira alguma um secularista moderno que tem repulsa pela ideia de existir um Deus. Ele era uma pessoa que achava que Deus havia dado certas habilidades mentais ao homen e que esse, por sua vez, deveria cultivá-las para a glória de Deus. O lema dos humanistas do século XV e XVI era o “ad fontes!“, isto é, “direto às fontes!”. Esses homens não queriam ouvir a opinião dos homens da maneira em que elas foram transmitidas através dos séculos. Eles queriam ir direto às fontes, diretamente aos documentos antigos para que pudessem aprender por eles mesmos.

Essa nova curiosidade renovou a ênfase dada aos textos originais da Bíblia. Apesar de a Vulgata latina ter tido um papel muito imporante durante séculos, nesse instante os homens estavam tentando examinar a base sobre a qual a Vulgata havia sido traduzida. Durante o século XV um humanista italiano chamado Lorenzo Valla começou a estudar as obras de Jerônimo. Ele descobriu que o texto presente nas Bíblias que circulavam na Europa naquela época diferia em vários lugares do texto que ele encontrou nos comentários bíblicos feitos por Jerônimo. Ele argumentava que uma vez que os comentários de Jerônimo eram pouco lidos e, portanto, pouco copiados, seria menos provável que eles tivessem sofrido mudanças quando copiados a mão. Como resultado, ele produziu uma versão corrigida da obra de Jerônimo, uma versão que, de fato, era muito mais próxima aos originais de Jerônimo que o texto usado pela Igreja Romana em sua época.

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