Apócrifos e Cânon no Cristianismo Primitivo

Uma das afirmações mais repetidas pelos críticos do Cânon do NT é a afirmação de que os apócrifos, e em especial os evangelhos apócrifos, eram tão comuns e tão utilizados quanto os escritos do Novo Testamento. Helmut Koester é um bom exemplo dessa tendência. Ele lamenta o fato de que os termos “apócrifo” e “canônico” ainda sejam usados pelos estudiosos modernos, porque, segundo ele, esses termos estão relacionados a “preconceitos de longa data” contra a autenticidade dos textos apócrifos. [1] Koester, em seguida, argumenta: “Se considerarmos o período mais antigo da tradição, veremos que vários evangelhos apócrifos são tão atestados quanto aqueles que mais tarde receberam o status de canônico“. [2] William Petersen oferece uma abordagem semelhante quando diz que os evangelhos apócrifos eram tão populares que “estavam se multiplicando como coelhos“. [3]

Mas será que é realmente verdade que os evangelhos apócrifos foram tão populares e difundidos quanto os Evangelhos canônicos? Eles estavam realmente em pé de igualdade? Três conjuntos de evidência sugerem o contrário:

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Livros perdidos da Bíblia?

Ao passar por seções religiosas de uma livraria, é provável que você encontre um punhado de títulos que sugerem a descoberta de “Livros Perdidos” da Bíblia. Geralmente, estes representam obras que eram “politicamente incorretas”, segundo às noções teológicas da época. Rejeitadas com espúrio pelos líderes da igreja primitiva, eram desacreditadas e destruídas. Felizmente, um punhado de cópias sobreviveram. Os arqueólogos resgataram os tão chamados “livros perdidos” da Bíblia. O Evangelho de Tomé, descoberto na biblioteca de Nag Hammadi no Egito, em 1945, seria um exemplo dessas obras.

Invariavelmente, isso causa um choque no cristão consciente. Será que a arqueologia descobriu antigos textos bíblicos que desafiam o atual cânone das Escrituras? É possível que a Bíblia que os cristãos têm hoje seja incompleta?

Pode ser difícil de acreditar, mas esta questão pode ser respondida sem ler qualquer um dos livros em questão. Nenhuma pesquisa precisa ser feita. Curiosamente, toda a questão pode ser respondida por uma olhar cuidadoso para uma palavra: Bíblia.

A Santa Bíblia

Toda a questão dos supostos livros perdidos da Bíblia caem na questão de o que se quer dizer com a palavra “Bíblia”. Só pode significar uma de duas coisas, ao meu ver. Há uma definição religiosa da palavra, e há ainda uma definição mais secular.
Quando alguém pergunta a um cristão evangélico o que é a Bíblia, é provável que ele responda: “É a Palavra de Deus.” Quando pressionado por uma definição mais teologicamente precisa, ele poderia acrescentar que Deus supervisionou a redação das Escrituras de modo que os autores humanos, usando seu próprio estilo, personalidades e recursos, escreveram, palavra por palavra, exatamente o que Deus
destinava-os a escrever. Esta inspiração plenária verbal é uma parte vital da definição cristã da palavra “Bíblia”.
O conceito-chave para a nossa discussão é a frase “exatamente o que Deus pretendia que eles escrevessem.” Um elemento fundamental desta compreensão da “Bíblia” é a ideia de que Deus não estava limitado pelo fato de que autores humanos foram envolvidos no processo.

Erros humanos

Uma objeção comum à noção de inspiração é que a Bíblia foi escrita por homens, e homens cometem erros. Esta indagação peca por duas razões.
Em primeiro lugar, não é porque os humanos foram envolvidos no processo de escrita, que a Bíblia deve estar necessariamente errada. Erros podem acontecer, mas eles não são necessários. Assumir a presença de erro em toda a escrita humana é uma ideia auto-destrutiva. A própria declaração “A Bíblia foi escrita por homens, e os homens cometem erros”, seria suspeita pelos mesmos padrões. O fato é que os seres humanos podem escrever e produzir textos sem erros. Isso acontece o tempo todo.

Além disso, o indagação de que os homens cometem erros ignora a questão principal : se a Bíblia foi ou não escrita apenas por homens. O cristão até aceita que os seres humanos são limitados, mas nega que as limitações do homem são importantes nesse caso, porque a inspiração implica que o poder de Deus fornece o que é necessário ao homem.

Uma pergunta simples que seve como ilustração: “Você está dizendo que se Deus existe, Ele não é capaz de escrever o que Ele quer através de homens imperfeitos?” A noção de um Deus onipotente não ser capaz de realizar uma tarefa tão simples é ridícula! Se, por outro lado, a resposta é “Não, eu acho sim que Ele é capaz”, então a objeção desaparece. Se Deus é capaz, então as limitações do homem não são um limite para Deus. Se Deus garante os resultados, não importa se os homens ou os macacos fazem a escrita, eles ainda vão escrever exatamente o que Deus quer. Isso é parte do que significa dizer que a Bíblia é divinamente inspirada. Nosso propósito aqui não é defender a noção de inspiração divina, mas entender que a autoria de Deus e preservação sobrenatural estão necessariamente ligadas à primeira definição da palavra “Bíblia.” A Bíblia é um conjunto de 66 livros contidos que são sobrenaturalmente inspirados por Deus, e são preservados e protegidos pelo Seu poder. Tendo isso em mente, as limitações do homem são irrelevantes.

A Bíblia Secular

A segunda definição da palavra “Bíblia” não é religiosa e, portanto, não admite qualquer origem sobrenatural das Escrituras. Esse ponto de vista diz que enquanto os cristãos tratarem as Escrituras como divinamente inspiradas, eles estarão enganados. A Bíblia é meramente um consenso humano, uma coleção de livros escolhida pela igreja primitiva para refletir suas próprias crenças.

Um livro seria rejeitado basicamente por duas razões. Os primeiros cristãos não eram capazes de rastrear a autoria de um apóstolo ou o registro das testemunhas, e a teologia se distinguia daquela que tinha sido transmitida pelos apóstolos. O cristianismo não é diferente de outras religiões que têm coleções de escritos canônicos.A Bíblia, então, está nessa categoria – apenas uma coleção de livros escolhidos pelos líderes da igreja primitiva para representar suas próprias crenças.

Portanto, temos dois possíveis significados para a palavra “Bíblia”, um sobrenatural e um natural. Ou a Bíblia é  divinamente preservada, pelo ponto de vista do cristão conservador, ou é apenas um documento humano que representam as crenças de um grupo religioso conhecido por “cristianismo”, o ponto de vista de quase todos as outras pessoas. Dada qualquer uma destas duas definições, podem haver livros perdidos da Bíblia?

Não há livros perdidos

Comecemos com o primeiro significado, da definição sobrenatural da Bíblia. É possível que os livros pudessem se perder? A resposta é claramente não. Lembre-se, nesta visão Deus é sobrenatural para preservar e proteger a integridade de Sua obra. A hipótese dos “livros perdidos” seria reduzida a afirmação de que “Certos livros que Deus Todo-Poderoso era responsável para preservar e proteger se perderam.”

Poderiam haver livros perdidos, dada a segunda definição? E se os cristãos estão errados em atribuir a administração de Deus para as Escrituras? E se a Bíblia na verdade é meramente um produto humano? Se for esse o caso, então, o termo “Bíblia” não se refere à Palavra de Deus (a primeira definição), mas para o cânone das crenças dos líderes da igreja primitiva (a segunda definição). É possível que os livros se perdessem nesse tipo de Bíblia?

A resposta é novamente não! Se a Bíblia é uma coleção de livros que os primeiros líderes da igreja decidiram que representaria o seu ponto de vista, então eles têm a palavra final sobre o que está incluído. Todos os livros que eles rejeitaram nunca fizeram parte de sua Bíblia, para começar! Por isso mesmo pela segunda definição, os “livros perdidos” da Bíblia seriam um equívoco.

Considere a seguinte situação. Você decide escrever um livro sobre suas crenças pessoais a partir de várias de notas contendo reflexões que você coletou ao longo dos anos. Depois de registrar o que você concorda, você descarta o resto. Mais tarde, alguém vasculha o seu lixo e acha as suas notas descartadas. Essa pessoa poderia alegar que achou suas crenças perdidas?

“Não”, você responde. “Se essas notas fossem minhas crenças elas estariam no livro, não no lixo”.

É irônico que os defensores dos “livros perdidos” muitas vezes apontam que os textos redescobertos estavam sumidos porque os Padres da Igreja os suprimiram. É verdade, eles suprimiram. Os críticos acham que isso fortalece a sua opinião, mas não é essa a questão. Esse fato na verdade destrói o ponto de vista deles, provando que os “livros perdidos” não se perderam, mas foram descartados, rejeitados por não serem representativos das reais crenças cristãs. Portanto, eles não pertencem à Bíblia cristã. Se eles nunca estiveram na Bíblia eles não podem ser livros perdidos da mesma!

Independentemente de como você vê as Escrituras, como sobrenatural ou natural, não faz sentido nenhum dizer que há livros perdidos da Bíblia. Se a Bíblia é sobrenatural, se Deus é responsável pela sua escrita, sua transmissão, e sua preservação, então Deus, sendo Deus, não falha. Ele não erra, Ele não esquece as coisas, e Ele não está limitado por limitações humanas.

No entanto, se a Bíblia não é sobrenatural, como muitos irão dizer, especialmente aqueles que afirmam terem encontrado livros perdios, eles enfrentam um problema diferente. Por qual padrão que afirmamos que estes são livros perdidos do cânone da igreja primitiva? Se, a partir de uma perspectiva humana, a Bíblia é uma coleção de escritos que refletem as crenças do cristianismo primitivo, qualquer escrito rejeitado pelos pais da igreja não são livros de sua Bíblia pela própria definição!

A arqueologia tem descoberto textos antigos desconhecidos? Certamente. Eles são interessantes, notáveis e valiosos? Alguns. São livros perdidos da Bíblia? A resposta é não. Dois mil anos depois, a redescoberta de um escrito como o Evangelho de Tomé pode ser arqueologicamente significativa. Pode ser um livro perdido da antiguidade, um grande achado, até mesmo um pedaço maravilhoso da literatura.

Mas não é um livro perdido da Bíblia.