Variáveis Aleatórias e a Soberania de Deus – Parte 2/2

No primeiro post, estudamos um pouco a história do interesse humano nos  “eventos do acaso”, vimos as interpretações que foram dadas a eles e como as novas descobertas (principalmente na Mecânica Quântica) tem mudado toda a concepção acerca da realidade do universo.

Agora, iremos tratar das possíveis interpretações cristãs que conectam a Soberania de Deus aos eventos do acaso. Comecemos por William Pollard:

O acaso e a providência

Uma década antes, William Pollard, um físico nuclear e clérigo cristão, tratou do problema da aleatoriedade no universo a partir de uma perspectiva cristã. Suas ideias foram publicadas no livro Chance and Providence. Como cientista, ele havia sido treinado para ver o mundo de forma objetiva. Como cristão, acreditava que Deus agia de forma providencial nos eventos da história. Portanto, ele lutava com o problema intelectual de reconciliar essas visões aparentemente contraditórias.

Pollard rejeita a noção de um universo determinista. Conforme suas próprias palavras, “o acaso parece ser essencial para o conhecimento científico, não por causa de alguma espécie de insuficiência temporária da ciência, mas porque o mundo que a mesma investiga é feito dessa maneira.”  [1]

Apesar de o acaso e a providência parecerem contraditórios, Pollard vê o primeiro como o veículo através do qual a providência de Deus pode ser manifesta. “O mesmo evento pode ser igualmente considerado como debaixo de todas as leis da natureza e da causalidade natural ao mesmo tempo que se encontra debaixo da vontade divina. A razão é que as leis da natureza descrevem apenas as chances (ou probabilidades) do evento acontecer sob um determinado conjunto de circunstâncias… O que é chamado de acaso em um determinado contexto pode em outro contexto (e sem contradição alguma) manifestar a vontade de Deus ao agir em juízo ou redenção.” [1]

Sua conclusão é então a seguinte: “A resposta judaico-cristã para a famosa pergunta de Einstein ‘Deus joga dados?’ não é, como muitos erroneamente supoem, uma negação, mas um sim bem definitivo. Pois apenas em um mundo onde as leis da natureza governam os eventos de acordo com o lançamento do dado é que a visão bíblica do mundo, cuja história é dependente da vontade de Deus, irá prevalecer.” [1, pg. 97]

Provavelmente teístas-abertos, arminianos e até mesmo molinistas podem simpatizar com essa resposta. Pessoalmente eu não gosto muito dela.  A principal razão porque não me agrada é que Pollard descarta muito facilmente a causalidade sem se preocupar (ao menos aparentemente) com as consequências.

Vamos partir então para a próxima interpretação:

O determinismo estatístico

David Dye, um outro físico e autor cristão, aceita as evidências da aleatoriedade na natureza, mas é mais cauteloso quando se trata da causalidade: “Existem hoje fortes razões para se aceitar a noção de que… todas as leis físicas devem ser enquadradas como afirmações de probabilidade. Pode ser que a natureza se comporte de forma estatística de acordo com os princípios do acaso. Mas… uma natureza estatística é uma coisa muito diferente de uma natureza não-causal, não-uniforme ou irracional.” [2, pg. 40]

Apesar de reconhecer que podemos descrever o comportamento de sistemas atômicos apenas através de probabilidades, ele diz o seguinte: “Nós não concordamos que a física moderna nos force ao tipo de visão estatística que nega a uniformidade ou a causalidade. Nós a consideramos como inteiramente consistente com todos os fatos para que assim possamos ter uma visão moderada de causalidade: a saber, a causalidade opera de acordo com as leis estatísticas.” [2, pg. 45].

Aqui ele está se referindo a leis tal como a “lei dos grandes números” que afirma que, apesar de um lançamento de uma moeda ser aleatório, a proporção de caras em 1000000 de lançamentos será muito próxima a 1/2. Ou, como outro exemplo, o teorema do limite central que garante que a média de uma amostra suficientemente grande (de praticamente qualquer tipo de distribuição) será aproximadamente normalmente distribuída. Logo, Dye opta por uma interpretação estatisticamente determinada da causalidade.

O acaso e o jogo da vida

Um outro autor que contribuiu significativamente nessa questão é A.R. Peacock, um físico, bio-químico e teólogo. Em seu livro, Creation and the World of Science, ele discorda da pressuposição de um universo sem propósito defendida por Monod. Além disso, seu conceito de aleatoriedade está mais próximo daquele defendido por Dye do que por Monod ou Pollard. Por exemplo, ele diz que “o envolvimento do acaso no nível de mutações não impede, por si mesmo, os eventos de manisfetarem um comportamento determinado por leis quando observamos o nível de populações ou de organismos”. [3]

Peacocke rejeita, assim como eu, a visão de providência divina defendida por Pollard, segundo ele “essa visão não é capaz de carregar o peso teológico, em relação a tradição bíblica, que ele mesmo insere“. [3]

Peacocke faz uma contribuição em relação a questão de Deus e o acaso que é importante destacar, “Se propomos que o universo deva sua existência a um Deus criador, então eu não vejo razão alguma para Deus não permitir que as potencialidades de seu universo se desenvolvam em todas as suas ramificações através da operação de eventos aleatórios; de fato, a princípio, esse é o único modo em que todas as potencialidades irão eventualmente, dado tempo e espaço suficiente, se tornar reais.” [3]

Perguntas e Observações

Como nosso entendimento atual do universo parece requerir uma certa dose de aleatoriedade, não vejo problema algum em um cristão acreditar que essa foi a forma que Deus quis construir o universo. Além do mais, os cristãos argumentaram por mais de 3 séculos que o sucesso fenomenal da matemática em entender e prever o mundo físico era uma evidência de uma ordem criada. Será que essa lógica não se aplica de igual forma quando a matemática trata de teoria da probabilidade ou estatística?

Como tudo isso se enquadra com a crença cristã do controle soberano de Deus sobre o universo? No presente momento eu tendo a defender a visão de Dye e Peacocke e não possuo um tratamento melhor para questão. Eu afirmo que Deus é livre para construir qualquer tipo de universo que Ele queira, mas que nossa compreensão atual nos sugere que Ele quis construir um em que a aleatoriedade desempenhasse um papel importante sem que nenhum dos resultados fugisse de Seu controle.

Na melhor das nossas definições o que podemos dizer é que a aleatoriedade descreve os eventos que não podemos detalhar a partir da lógica, da instrumentação ou dos experimentos. E conforme o cristianismo, qual é a outra coisa que não possuímos meios de medir por lógica ou experimentos? A mente de Deus! No fundo, no fundo, talvez toda a questão seja que não temos capacidade de penetrar a Sua mente. Ele nos permitiu, a partir da ciência, descobrir alguns de Seus propósitos e ficamos orgulhosos em achar que poderíamos investigar tudo minuciosamente. Para desespero dos cientificistas, Ele demonstrou, ironicamente pela própria ciência, que isso não é possível.

Porque ao invés de atribuirmos simplesmente uma natureza aleatória aos eventos do universo (fazendo com que Deus tenha que “se explicar” com Sua soberania) não afirmamos que Deus é o único que realmente possui Livre Arbítrio e que Sua vontade é o que, na verdade, determina tanto os eventos que obedecem as leis físicas e de causalidade (cuja conexão fica mais facilmente apresentada na mente humana) quanto os eventos que são aleatórios (cuja conexão não é tão facilmente explicada)?

Talvez a melhor conclusão para esse post seja a nona lei de Levy: “Somente Deus pode fazer uma verdadeira seleção aleatória“.

1 –  Pollard, W. G., Chance and Providence, Faber, London, 1958. Pg. 87
2 – Dye, D. L., Faith and the Physical World, Eerdmans, Grand Rapids, 1966.
3 – Peacocke, .A. R., Creation and the World of Science, Clarendon, Oxford, 1979.

Escrito por: Erving Ximendes

Anúncios

3 comentários em “Variáveis Aleatórias e a Soberania de Deus – Parte 2/2

  1. Essa nona lei de Levy é interessante, acho que faz muito sentido.

    Lendo seu post acabei por pensar que talvez essa aleatoriedade seja um mecanismo ou característica criada por DEUS para impedir que o ser humano descubra o fututo.

    Por que se o universo fosse totalmente determinista, do ponto de vista humano, então poderiamos facilmente determinar o futuro, inclusive quem iria nascer, o sexo, o nome etc.

    Mas DEUS diz que Ele é quem anuncia o fim desde o começo. Neste caso dando uma evidencia ao povo de que era mesmo DEUS quem falava com Sua capacidade única de “prever” com exatidão aquilo que iria acontecer em um futuro distante. Mostrando também ao homem que ele é limitado e depende de DEUS para ter seu futuro assegurado.

    Isso também, me parece apontar para a culpabilidade humana nas suas ações ( eu sou meio simpatizante do molinismo ).

    O que você me diz?

    1. Eu concordo em partes com você.
      A impressão pessoal que tenho (portanto, partindo de uma perspectiva cristã), desde a primeira vez que estudei Mecânica Quântica é que Deus limitou nosso conhecimento para que não fizessemos da ciência uma espécie de deus. O Criador quis que nosso conhecimento acerca das coisas do universo fosse limitado, alguns propósitos ele quis revelar, outros não.

      1. Sim, até por que o universo foi feito para glória de DEUS, logo seus atributos CLARAMENTE se veem pelas coisas que foram criadas, ou seja, o universo é demasiado fantastico em sua estrutura. Glória a DEUS!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s