João Capítulo 6 – James White

Nota do tradutor:

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Se esse é o caso, então João 6 é certamente o golpe de misericórdia. Nesse fascinante comentário elaborado pelo Dr. James White, temos a refutação de duas ideias errôneas (porém bastante distintas) que se propagaram no Cristianismo: a transubstanciação e a depravação parcial do homem.

Tendo em vista que essa é uma leitura extremamente detalhada (e, portanto, longa) do Capítulo 6 de João, irei fornecer também um link contendo o comentário em questão em um arquivo PDF (Joao Cap 6 – James White). Assim como o autor, eu espero que esse comentário seja útil para os crentes do Brasil e que ele ajude a Igreja brasileira a buscar um material teológico são.

Erving Ximendes


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Devemos ler apenas a tradução ACF? – Parte 2

No post anterior vimos como os crentes de Cártago defendiam, por pura tradição, a Septuaginta. No texto de hoje iremos ver que a controvérsia se repetiu aproximadamente 1100 anos depois, numa época em que a tradução de Jerônimo, mais conhecida como Vulgata, se tornou o padrão na Europa.

No começo do século XVI, a Vulgata era a Bíblia de “todos” e havia tomado a mesma posição que a Septuaginta possuía na mente dos cristãos um milênio atrás. Da mesma maneira que Jerônimo se meteu em problemas com sua “nova” tradução, um grande acadêmico veio novamente a causar tumulto. Esse homem era Desidério Erasmo.


Erasmo de Roterdã, escritos holandês.

Erasmo é conhecido hoje como o “Príncipe dos Humanistas”. No entanto, devemos ter cuidado com o termo “humanista” aqui. Erasmo não era de maneira alguma um secularista moderno que repuldia a ideia de existir um Deus. Ele era uma pessoa que achava que Deus havia dado certas habilidades mentais ao homem e que esse, por sua vez, deveria cultivá-las para a glória de Deus. O lema dos humanistas do século XV e XVI era o “ad fontes!“, isto é, “direto às fontes!”. Esses indivíduos não queriam ouvir a opinião dos homens da maneira em que elas foram transmitidas através dos séculos. Eles queriam ir direto às fontes, diretamente aos documentos antigos para que pudessem aprender por eles mesmos.

Essa nova curiosidade renovou a ênfase dada aos textos originais da Bíblia. Apesar de a Vulgata latina ter tido um papel muito imporante durante séculos, nesse instante os homens estavam tentando examinar a base sobre a qual a Vulgata havia sido traduzida. Durante o século XV um humanista italiano chamado Lorenzo Valla começou a estudar as obras de Jerônimo. Ele descobriu que o texto presente nas Bíblias que circulavam na Europa naquela época diferia em vários lugares do texto que ele encontrou nos comentários bíblicos feitos por Jerônimo. Ele argumentava que uma vez que os comentários de Jerônimo eram pouco lidos e, portanto, pouco copiados, seria menos provável que eles tivessem sofrido mudanças quando copiados a mão. Como resultado, ele produziu uma versão corrigida da obra de Jerônimo, uma versão que, de fato, era muito mais próxima aos originais de Jerônimo que o texto usado pela Igreja Romana em sua época.

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O verdadeiro significado de Tradição Apostólica

Será que o Sola Scriptura requer que acreditemos na existência de uma “tradição” (ou “regra de fé”) a qual devemos apelar para ter a interpretação correta da Bíblia? Não há dúvidas de que os escritores cristãos primitivos utilizavam esse termo, e muitos são rápidos em usar esse fato com alegria. Mas quando examinamos o seu significado, descobrimos que a maioria das referências são destinadas ou a um esboço fundamental das crenças cristãs sobre Deus e Cristo, ou a crenças sobre práticas e ritos que não eram doutrinários ou dogmáticos por natureza. Ireneu definiu “tradição” nos seguintes termos:

Todos esses declararam que existe um Deus, criador dos céus e da terra, anunciado pela lei e pelos profetas; e um Cristo, o Filho de Deus. Se alguém não concorda com essas verdades, esse alguém despreza os companheiros do Senhor; mais ainda, despreza o próprio Cristo, Senhor; sim, despreza também o Pai, e permanece auto-condenado, resistindo e opondo sua própria salvação, como é o caso de todos os hereges. (Alexander Roberts e James Donaldson, The Ante-Nicene Fathers, 1:414-415)

Obviamente, o conteúdo dessa “tradição” não é extra-bíblico: as Escrituras claramente ensinam essas coisas. Tertuliano, mais tarde, deu uma versão expandida:

Agora, no que diz respeito a esta regra de fé (para que possamos, a partir deste ponto, reconhecer o que é que defendemos), você deve saber aquilo que prescreve a crença de que existe um só Deus, e que Ele não é outro senão o Criador do mundo, que produziu todas as coisas a partir do nada por meio de Sua própria Palavra; que essa Palavra é chamada de Seu Filho, e, sob o nome de Deus, foi visto em diversas maneiras pelos patriarcas, ouvido durante todas as épocas pelos profetas, enfim levado pelo Espírito e pelo poder do Pai para a Virgem Maria, se fazendo carne em seu ventre, e, tendo nascido dela, se revelando como Jesus Cristo; daí em diante Ele pregou a nova lei e a nova promessa do reino dos céus, operou milagres; tendo sido crucificado, ressuscitou ao terceiro dia; tendo subido aos céus, Ele sentou-se à direita do Pai; enviou, ao invés de si mesmo, o poder do Espírito Santo para liderar os que crêem; virá com glória para levar os santos ao gozo da vida eterna e das promessas celestiais, e para condenar os ímpios ao fogo eterno, após a ressurreição de ambas essas classes ter acontecido, em conjunto com a restauração de sua carne. Esta regra, como será provado, foi ensinada por Cristo, e não levanta entre nós qualquer questão além daquelas que as heresias introduzem, e que fazem os homens hereges. (Tertuliano, Prescrição contra os hereges, 13)

Mas, novamente, tudo isso pode ser derivado a partir do texto inspirado e não existe como uma revelação separada das Escrituras. Se quando alguém fala de “tradição apostólica” e de “interpretar as Escrituras sob a luz da regra de fé”, tudo o que esse alguém quer dizer é que existem certas coisas inegociáveis que são fundamentais para uma compreensão adequada da Palavra de Deus e da fé cristã, dificilmente existirá alguma discussão.  Tudo o que se precisa fazer para enxergar essa verdade é notar as relativamente poucas tentativas feitas pelos estudiosos mórmons para fornecer comentários exegéticos sobre os textos das Escrituras, especialmente a literatura neo-testamentária, e a impossibilidade de realizar tal tarefa sob a luz do politeísmo. Deve-se entender os esboços mais básicos da verdade cristã para investigar mais profundamente a revelação das Escrituras, e se alguém começa com erros nesse ponto, os esforços restantes serão em vão. Se isso é tudo o que alguém quer dizer por “regra de fé”, então isso é completamente compreensível.

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10 perguntas para os simpatizantes da ICAR

Na semana passada eu recebi o seguinte e-mail e senti que seria melhor compartilhar a resposta aqui no blog.

Caro Sr. White, Para alguém que esteja considerando se converter ao catolicismo romano, quais seriam as perguntas que o senhor faria a fim de discernir se esse alguém examinou ou não a situação o suficiente? Digamos, uma lista Top 10 de perguntas. Obrigado.

Quando eu postei isso em nosso canal de bate-papo, um grande número de pessoas comentou que essa era, de fato, uma ótima pergunta, e nós começamos a elaborar algumas possíveis respostas. Aqui está minha lista Top 10:

  • 10) Você ouviu os dois lados? Isto é, você fez algo mais do que simplesmente ler “Todos os caminhos levam a Roma” e ouvir algumas histórias emotivas de conversão? Você realmente separou um tempo para buscar respostas sérias às reivindicações de Roma, respostas essas que vem sendo oferecidas por escritores desde a época da Reforma, como Goode, Whitaker, Salmon, e alguns escritores modernos? Em especial, quero excluir desta lista qualquer coisa que tenha sido escrita por Jack Chick e Dave Hunt.
  • 9) Você já leu alguma análise histórica objetiva da Igreja Primitiva? Refiro-me a uma que explicaria a grande diversidade de pontos de vista encontrados nos escritos dos primeiros séculos, e que explicaria, com precisão, as controvérsias, lutas, sucessos e fracassos desses primeiros crentes?
  • 8) Você já olhou atentamente para as afirmações Roma sob uma luz histórica? Sendo mais específico, você já examinou as reivindicações de Roma sobre o “consentimento unânime” dos Padres e todas as evidências que se opõem não só à suposta aceitação universal do papado, mas especialmente ao conceito de infalibilidade papal? Como você explica, de forma consistente, a história da igreja primitiva, à luz das afirmações modernas feitas por Roma? Como você explica coisas como a Pornocracia e o Cativeiro Babilônico da Igreja sem assumir a veracidade do mesmo sistema que você está abraçando?
  • 7) Você aplicou os mesmos padrões que os apoligistas católicos romanos usam para atacar o Sola Scriptura para, igualmente, testar as alegações de suprema autoridade de Roma? Como você explica o fato de que as respostas que Roma dá para suas próprias objeções são circulares? Por exemplo, se Roma afirma que precisa da Igreja para estabelecer um cânone infalível, como é que isso pode responder à pergunta, uma vez que agora você tem que perguntar como Roma chega a esse conhecimento infalível. Ou, se argumentam que o Sola Scriptura produz anarquia, por que é que o magistério de Roma não produz unanimidade e harmonia? Se alegam que existem 33.000 denominações devido ao Sola Scriptura, e sabendo que esse número escandaloso foi repetidamente refutado (veja o livro Upon This Rock Slippery do Eric Svendsen para uma análise mais detalhada), você já se perguntou porque eles são tão desonestos e desleixados em suas pesquisas?
  • 6) Você já leu o Sílabo dos Erros e a Indulgentiarum doctrina (doutrina das indulgências)? Alguém pode seriamente ler a descrição de Graça encontrada no último documento e fingir por um segundo sequer que essa é a mesma doutrina da Graça ensinada por Paulo aos romanos?
  • 5) Você já considerou as ramificações de Roma acerca das doutrinas sobre o pecado, o perdão, os castigos eternos e temporais, o purgatório, a tesouraria do mérito, transubstanciação, o sacerdócio sacramental, e indulgências? Você realmente se deu ao trabalho de fazer uma análise séria de passagens pertinentes como Efésios 2, Romanos 3-5, Gálatas 1-2, Hebreus 7-10 e todo o capítulo 6 de João, à luz do ensinamento romano?
  • 4) Você já se perguntou o que significa abraçar um sistema que ensina que você pode se aproximar do sacrifício de Cristo milhares de vezes em sua vida e que ainda assim pode morrer impuro e como um inimigo de Deus? E você já se perguntou porque embora os ensinamentos históricos de Roma sobre estas questões sejam facilmente identificáveis, a grande maioria dos católicos romanos hoje, incluindo padres, bispos e eruditos, não acreditam mais nessas coisas? O que isso significa?
  • 3) Você já parou para pensar o que significa chamar um ser humano de Santo Padre (que é um nome divino, usado por Jesus unicamente acerca de Seu Pai) e Vigário de Cristo (que, por sua vez, é o Espírito Santo)? Você realmente pode encontrar algo nas Escrituras que o levariam a acreditar que a vontade de Cristo era que um bispo em Roma (ou seja, numa cidade centenas de milhas de distância de Jerusalém) não só fosse o cabeça de Sua igreja, mas que fosse tratado como um rei na terra, com pessoas se prostrando a ele, como o Pontífice Romano é tratado?
  • 2) Você já parou para pensar o quão antibíblico e quão a-histórico é todo o conjunto de doutrinas e dogmas relacionados a Maria? Você realmente acredita que os Apóstolos ensinavam que Maria havia sido concebida imaculadamente, e que ela permaneceu perpetuamente virgem (de tal maneira que ela viajou sobre a Palestina com um grupo de jovens que não eram seus filhos, mas sim primos de Jesus, ou meio-irmãos, filhos de um casamento anterior de José)? Você acredita que dogmas definidos quase 2.000 anos depois do nascimento de Cristo realmente representam os ensinamentos dos apóstolos? Você está ciente de que doutrinas como a Virgindade Perpétua e a Assunção Corpórea têm sua origem no gnosticismo, não no cristianismo, e que elas não têm nenhum fundamento na doutrina ou prática apostólica? Como você explica o fato de que você deve acreditar nessas coisas de fide, isto é, pela fé, quando gerações de cristãos viveram e morreram sem nunca sequer ter ouvido falar de tais coisas ?

E a pergunta número um que eu gostaria de fazer a tal pessoa é:

  • 1) Se você afirma que em certo dia tenha abraçado o evangelho da Graça, no qual confessava que a sua única posição diante de um Deus três vezes santo era a túnica inconsútil da justiça imputada de Cristo, de modo que você não tinha mérito algum, apenas a perfeita justiça dEle e com isso obtive paz diante de Deus, sobre quais possíveis razões você poderia vir a abraçar um sistema que, em seu coração nega-lhe essa paz que se encontra em um Salvador perfeito que realiza a vontade do Pai e um Espírito que não pode falhar? Você realmente acredita que o ciclo infinito de perdão sacramental (o qual agora você irá se submeter) pode lhe fornecer a paz que a perfeita justiça de Cristo não pode?

Fonte: Alpha and Omega Ministries – James White

Tradução: Erving Ximendes