Podemos confiar na Bíblia mais do que na ciência evolucionária?

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Nota do tradutor:
O ensaio elaborado pelo Dr. James N. Anderson, apesar de não conter detalhes técnicos e científicos sobre a discussão Evolucionismo vs. Criacionismo, servirá de grande ajuda aos cristãos que se deparam com argumentos ateístas e secularistas. O mecanismo por trás do processo de seleção de teorias científicas é analisado e comentado de tal maneira que dá ao cristão comum ferramentas suficientes para fornecer uma defesa filosófica racional de sua posição no debate em questão. Como um cientista em formação, esse ensaio me ajudou a perceber e relembrar várias coisas que fazemos ao obter evidências empíricas e, creio eu, que será de grande proveito para todas as classes de cristãos.
Erving Ximendes

Não é segredo algum que uma das principais razões dadas pelos descrentes para não crer na Bíblia é que a ciência moderna (especificamente, a ciência evolucionária) mostrou que o relato da Bíblia concernente à origem do homem está incorreto. De fato, a ciência evolucionária não é meramente um obstáculo para descrentes; ela também pode ser uma pedra de tropeço para cristãos professos. Existem muitos crentes tentando desesperadamente reconciliar uma alta consideração pela Bíblia com as alegações científicas mais comuns acerca de nossas origens evolucionárias, e aqueles que não conseguem fazer isso acabam por invariavelmente diminuir a doutrina das Escrituras. Em alguns casos esse é apenas o primeiro passo a um abandono quase completo da ortodoxia cristã. Tanto para crentes quanto para descrentes, as alegações da ciência evolucionária apresentam um desafio sério à confiabilidade da Bíblia.

Podemos confiar na Bíblia mais do que na ciência evolucionária? Duvido que seja necessário eu escrever um “alerta de spoiler” antes de revelar que minha resposta à pergunta será um enfático “sim”. Ainda assim, muito precisa ser discutido antes de chegar à essa conclusão afirmativa. Por que podemos confiar na Bíblia mais do que na ciência evolucionária? Com base em quê podemos responder a essa pergunta com um “sim” de confiança? Esse será o foco primário deste artigo. Durante isso, no entanto, eu quero dizer algumas coisas importantes sobre como devemos tratar essa questão (e questões similares sobre a confiabilidade da Bíblia) para que os leitores possam ser melhor equipados para lidar com esse é outros desafios às Escrituras.[1]

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Pequenos detalhes que todo cristão deveria saber – Parte 2

Seguindo nossa série de posts, dessa vez trataremos, através de uma adaptação de um artigo produzido pelo Dr. Michael Kruger, da questão da compilação do Cânon do Novo Testamento.

Ao investigar esse assunto, os estudiosos gostam de destacar a primeira vez que encontramos uma lista completa de 27 livros. Sem nenhuma surpresa, a lista contida na famosa Carta Pascoal (367 d.C) de Atanásio é mencionada como a primeira vez que algo assim aparece na história da Igreja Cristã.

Como resultado, frequentemente ouvimos que o Novo Testamento foi um fenômeno tardio e que os cristãos não possuíam o Novo Testamento até o final do quarto século. No entanto, esse tipo de raciocínio é problemático em vários níveis. Em primeiro lugar, nós não avaliamos a existência do Novo Testamento apenas através da existência de listas. Se examinamos a maneira que certos livros foram usados pelos pais da igreja primitiva, fica evidente que existia um cânon operante muito antes do quarto século. De fato, lá pelo segundo século já existe uma coleção central de livros do Novo Testamento funcionando como Escrituras.

Em segundo lugar, existem razões para acreditar que a lista de Atanásio não é a mais antiga lista completa que possuímos. O Dr. Michael Kruger argumenta que, por volta de 250 d.C., Orígenes produziu uma lista completa contendo os 27 livros do Novo Testamento (mais de 100 anos antes de Atanásio). Em sua maneira tipicamente alegórica, Orígenes usou a história de Josué para descrever o cânon do Novo Testamento:

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Pequenos detalhes que todo cristão deveria saber – Parte 1

Essa série de posts terá o propósito de apresentar detalhes que passam desapercebidos ou são desconhecidos por grande parte dos cristãos mas que tem uma influência muito grande na eficácia de argumentos na apologética. Nesse primeiro post iremos tratar de um detalhe útil nas discussões com arianos e antitrinitarianos em geral. Ele é conhecido como a regra de Granville Sharp

No Grego Koiné existe uma regra gramatical simples, porém muito importante, que está diretamente relacionada à Divindade do Senhor Jesus Cristo conforme exposta nas Escrituras: a regra de Granville Sharp. Ela basicamente lida com o sentido de passagens como Tito 2:13 e 2 Pedro 1:1, cujas traduções são deturpadas por grupos antitrinitarianos. Sendo assim, acreditamos que todo cristão deve estar informado a respeito desse assunto (ainda que de maneira breve).

A regra de Granville Sharp afirma que caso encontremos dois substantivos descrevendo uma pessoa (que não sejam substantivos próprios como Paulo, Silas ou Timóteo) e eles estejam ligados pelo conectivo “e”, com o primeiro apresentando o artigo (“o”) e o segundo não, então ambos substantivos estarão se referindo à mesma pessoa. Isso é exemplificado em nossos textos pelas palavras “Deus” e “Salvador” em Tito 2:13 e 2 Pedro 1:1:

… enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo.” (Tito 2:13)

Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, àqueles que, mediante a justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam conosco uma fé igualmente valiosa” (2 Pedro 1:1)

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Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 3)

[Esse será o terceiro post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série involuntariamente e lamentavelmente esporádica, eu estive considerando a pergunta: O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo? No primeiro post eu argumentei que a Bíblia afirma (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus acerca dos contrafactuais de liberdade da criatura (isto é, o conhecimento acerca do que qualquer agente criado irá livremente fazer se colocado em determinadas circunstâncias), mas o Molinismo não possui nenhuma vantagem sobre o Agostinianismo no que diz respeito a (1) e (2). Eu concluí com a seguinte afirmação:

Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico que o Agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição que é afirmada pelo Molinismo e negada pelo Agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p)“.

No segundo post eu examinei um candidato para a proposição p: a proposição de que a liberdade moral é incompatível com o determinismo (uma coisa que os molinistas invariavelmente afirmam, mas que os agostinianos normalmente negam). Cheguei à conclusão de que a Bíblia não oferece suporte para o incompatibilismo. Neste post eu vou considerar um segundo candidato a proposição p: a proposição de que Deus deseja que todos sejam salvos.

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Devemos ler apenas a tradução ACF? – Parte 2

No post anterior vimos como os crentes de Cártago defendiam, por pura tradição, a Septuaginta. No texto de hoje iremos ver que a controvérsia se repetiu aproximadamente 1100 anos depois, numa época em que a tradução de Jerônimo, mais conhecida como Vulgata, se tornou o padrão na Europa.

No começo do século XVI, a Vulgata era a Bíblia de “todos” e havia tomado a mesma posição que a Septuaginta possuía na mente dos cristãos um milênio atrás. Da mesma maneira que Jerônimo se meteu em problemas com sua “nova” tradução, um grande acadêmico veio novamente a causar tumulto. Esse homem era Desidério Erasmo.


Erasmo de Roterdã, escritos holandês.

Erasmo é conhecido hoje como o “Príncipe dos Humanistas”. No entanto, devemos ter cuidado com o termo “humanista” aqui. Erasmo não era de maneira alguma um secularista moderno que repuldia a ideia de existir um Deus. Ele era uma pessoa que achava que Deus havia dado certas habilidades mentais ao homem e que esse, por sua vez, deveria cultivá-las para a glória de Deus. O lema dos humanistas do século XV e XVI era o “ad fontes!“, isto é, “direto às fontes!”. Esses indivíduos não queriam ouvir a opinião dos homens da maneira em que elas foram transmitidas através dos séculos. Eles queriam ir direto às fontes, diretamente aos documentos antigos para que pudessem aprender por eles mesmos.

Essa nova curiosidade renovou a ênfase dada aos textos originais da Bíblia. Apesar de a Vulgata latina ter tido um papel muito imporante durante séculos, nesse instante os homens estavam tentando examinar a base sobre a qual a Vulgata havia sido traduzida. Durante o século XV um humanista italiano chamado Lorenzo Valla começou a estudar as obras de Jerônimo. Ele descobriu que o texto presente nas Bíblias que circulavam na Europa naquela época diferia em vários lugares do texto que ele encontrou nos comentários bíblicos feitos por Jerônimo. Ele argumentava que uma vez que os comentários de Jerônimo eram pouco lidos e, portanto, pouco copiados, seria menos provável que eles tivessem sofrido mudanças quando copiados a mão. Como resultado, ele produziu uma versão corrigida da obra de Jerônimo, uma versão que, de fato, era muito mais próxima aos originais de Jerônimo que o texto usado pela Igreja Romana em sua época.

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Devemos ler apenas a tradução ACF? – Parte 1

A humanidade parece ter um desejo intenso de mudança. Nós sempre estamos dispostos a experimentar coisas “diferentes”. A maioria de nós acredita que podemosmelhorar nossa vida e nosso meio. A chave para isso sempre é: mudança.

No entanto, mudar pelo simples desejo de mudar não é uma virtude cristã. Esse tipo de atitude pode ser um  mandamento das revistas e novelas mas com certeza não é um mandamento das Escrituras. Estar contente com os dons e as provisões de Deus é certamente uma característica rara dos cristãos de hoje.

Em questões religiosas, dois extremos estão sempre presentes: aqueles que procuram novidades na experiência religiosa e aqueles que resistem a todo tipo de mudança. No entanto, os crentes devem andar no caminho estreito entre essas duas posições. Nunca devemos procurar “novas verdades” que nos levem além daquilo que Deus já nos revelou em Jesus Cristo. Atitudes desse tipo revelariam um profundo equívoco ao interpretar as riquezas que já são nossas em Jesus. Ao mesmo tempo, não devemos chegar ao ponto onde estamos tão apegados as nossas tradições (ao nosso “jeito de fazer as coisas“) que nos tornamos indispostos a melhorar o nosso serviço para com Cristo. A chave é o equilíbrio.

Quando chegamos na questão de traduções da Bíblia, novamente encontramos os dois extremos. De um lado temos aqueles que procuram fazer traduções distintas para cada grupo e subgrupo que existe em nosso país. Será que realmente precisamos de traduções diferentes para homens, mulheres, idosos, surfistas, etc? Acredito eu que não. No entanto, do outro lado encontramos aqueles que dizem defender a “antiga verdade” das Escrituras, se prendendo a uma tradução feita no século XVII e soltando frases de efeito do tipo “Se era bom para o Apóstolo Paulo, é bom para mim!“. Se esses indivíduos tirassem um pouco tempo para estudar a história da Igreja, ficariam surpresos em encontrar esses mesmos argumentos em campos estrangeiros. Pois, veja bem, essa não é a primeira vez que as pessoas argumentam que um texto em particular (uma determinada tradução) deve ser usado exclusivamente por aqueles que desejam ser fiéis a Deus. E da mesma forma que as pessoas no passado estavam em erro ao lançar estes argumentos, os defensores do “ACF somente” também estão.

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