Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 4)

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[Este será o quarto post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série embaraçosamente intermitente, eu tenho tratado da seguinte pergunta: Quão bem o Molinismo é apoiado pela Bíblia? No primeiro post, eu argumentei que o Agostinianismo e o Molinismo podem igualmente acomodar a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais de liberdade das criaturas, ambos claramente afirmados pela Bíblia. Concluí observando que, para mostrar que o Molinismo é mais bíblico do que o Agostinianismo, precisaríamos identificar uma proposição p que (i) fosse afirmada pelo Molinismo, mas negada pelo agostinianismo, e (ii) que fosse afirmada ou que estivesse claramente implícita em algum ensinamento bíblico.

No segundo e terceiro posts, considerei dois candidatos para p: primeiro, a proposição de que a liberdade moral é incompatível com o determinismo e, segundo, a proposição de que Deus deseja que todos sejam salvos. Em nenhum dos casos, concluímos, a proposta p satisfaz simultaneamente a (i) e (ii).

Agora vou considerar um terceiro candidato a p: a proposição de que Deus não é o autor do pecado. Esta é uma objeção bastante usada pelos Molinistas em seus debates contra os calvinistas (e agostinianos mais amplamente). Por exemplo, William Lane Craig levanta esta objeção em sua contribuição no livro Quatro Visões sobre a Providência Divina. O ponto da acusação é que o Agostinianismo, por causa de seu compromisso com o determinismo divino, torna Deus o autor do pecado de uma maneira que o molinismo (que rejeita o determinismo divino) não o faz.

“AUTOR DO PECADO”?

Será que o agostinianismo faz com que Deus seja o autor do pecado? O primeiro problema que enfrentamos ao responder a essa pergunta é a confusão contida na expressão “autor do pecado“. Os críticos do calvinismo (que é uma forma de Agostinianismo) freqüentemente afirmam que este torna Deus o “autor do pecado“. Raramente eles definirão (se é que definirão) de uma forma precisa a expressão em questão e raramente explicarão como o calvinismo torna Deus o “autor do pecado” (e, além disso, não dirão por que isso seria censurável). A carga é simplesmente pendurada como se tudo fosse auto-evidente. Aparentemente, a frase “O calvinismo torna Deus o autor do pecado!” carrega a mesma força que “O imperador está sem roupa!“. Uma vez que a observação foi feita, o que mais precisa ser dito?

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Bem, um pouco mais precisa ser dito. Então vamos tentar deixar o significado da frase um pouco mais claro. Para que o argumento sobreviva a uma avaliação detalhada (isto é, para que o Molinismo, ao contrário do Agostinianismo, evite tornar Deus o autor do pecado) deve haver alguma interpretação da acusação de que “Deus é o autor do pecado” de tal forma que (i) ela se aplique ao Agostinianismo mas não ao Molinismo, (ii) que ela faça mais do que simplesmente reafirmar as diferenças entre o Agostinianismo e o Molinismo, e (iii) que ela tenha algumas implicações censuráveis (no contexto atual, a implicação censurável deve ser um conflito demonstrável a partir de algum ensinamento bíblico).

Opção #1: Deus decreta/ordena o pecado. Certamente o Agostinianismo afirma que Deus decreta/ordena o pecado ou, mais precisamente, que Ele decreta/ordena que algumas de suas criaturas às vezes pecarão. Mas o mesmo vale para o Molinismo. De acordo com o Molinismo, Deus tem um decreto infalível que abrange todos os eventos dentro da criação, incluindo os pecados das criaturas. Então, isso não pode ser o que o molinista quer dizer com a expressão “autor do pecado”.

Opção #2: Deus produz um “script” contendo o pecado. Talvez a palavra “autor” se destina a ser análogo ao que um autor humano é de uma obra de romance. Na visão agostiniana há um sentido claro em que Deus é o autor da história: seu decreto é análogo a um roteiro ou enredo que é executado na história de sua criação. Se esse é o significado, dizer que Deus é o “autor do pecado” significa dizer nada mais de que Deus decreta/ordena o pecado (veja acima). Mas, novamente, se esse é o significado, então o Molinismo também torna Deus o “autor do pecado”.

Opção #3: Deus age de tal forma a garantir que suas criaturas pequem. O Agostinianismo afirma que Deus cria e providencialmente dirige o mundo de acordo com um decreto eterno, infalível e abrangente, e esse decreto inclui os pecados cometidos pelas criaturas. Assim, nesse sentido amplo, Deus age para assegurar que suas criaturas pequem. Mas, novamente, o mesmo pode ser dito do Molinismo: Deus “fracamente” torna real um dos vários mundos possíveis em que os pecados cometidos pelas criaturas são reais. Além disso, Ele o faz infalivelmente: se Deus “fracamente” torna real um mundo possível onde uma determinada criatura comete um certo pecado, então segue necessariamente que a criatura pecará. Portanto, esta opção não distingue o Agostinianismo do Molinismo.

Opção #4: Deus determina que suas criaturas pequem. Se alguém afirma (assim como eu) que o Agostinianismo está ligado ao determinismo divino, então certamente o Agostinianismo implica que Deus determina que suas criaturas pequem. Eu discuti em outro lugar que o Molinismo é, em um certo sentido (mais fraco), também determinístico, mas vamos deixar isso de lado para o bem da argumentação. Se “autor do pecado” significa simplesmente “determinador do pecado” (no sentido agostiniano), então acusar o Agostinianismo de fazer de Deus o autor do pecado é nada mais do que dizer que o Agostinianismo é Agostiniano, o que dificilmente é uma revelação chocante. O que o Molinista precisa mostrar é que a Bíblia nega o determinismo divino ou que afirma coisas que o contradizem. No entanto, isso não pode ser feito sem importar teses filosóficas polêmicas como o incompatibilismo. Em outras palavras, esta opção acaba assumindo a conclusão do argumento contra o Agostinianismo.

Opção #5: Deus determina de maneira causal que suas criaturas pequem. Obviamente esta é uma versão mais refinada da opção anterior. Existem diferentes tipos de determinismo, e nem todos os tipos são de natureza causal. O determinismo divino não tem de ser necessariamente o determinismo divino causal. Portanto, é uma questão aberta se o agostinianismo está comprometido com a ideia de que Deus causalmente determina que suas criaturas pequem. No entanto, mesmo admitindo que esteja comprometido, o mesmo problema da opção anterior surge. Simplesmente reafirmar os dogmas ou as implicações do Agostinianismo não ajuda em nada na tarefa de refutá-lo ou de mostrar que ele está em desacordo com os ensinamentos bíblicos.

Opção #6: Deus é o originador ou criador do pecado. A palavra “autor” às vezes pode significar “criador” ou “originador”. Portanto, talvez a afirmação de que o Agostinianismo “faz de Deus o autor do pecado” se traduz na afirmação de que ele torna Deus o criador ou originador do pecado. Ainda assim, isso não é muito perspicaz. O Agostinianismo certamente não está comprometido com a ideia de que Deus cria o pecado. Pelo contrário, Deus cria o mundo, incluindo os agentes criados, e Ele cria tudo de bom. Alguns desses agentes criados passam a cometer pecados por sua própria vontade, mas seria perverso sugerir que criar um agente que comete um pecado implica em estar criando o mesmo pecado – se isso fosse verdade, então o Molinista, juntamente com todos os outros cristãos ortodoxos, estaria no mesmo barco naufragado que o Agostiniano está.
E quanto à ideia de que Deus é o originador do pecado? Se isso não significar nada mais do que Deus decretar, ordenar, ou determinar que algumas de suas criaturas pequem, então esta opção não apresenta avanço algum em relação a # 1 e a # 4, que já foram descartadas. Se, por outro lado, isso significa que Deus é de alguma forma o pecador original (em virtude de ordenar o pecado de uma maneira Agostiniana e não-molinista), então isso é algo que os Agostinianos absolutamente repudiam, assim como a Bíblia o faz. Novamente nos deparamos com um cenário em que o Molinista tem que recorrer a teses filosóficas extra-bíblicas e discutíveis sobre o determinismo e a culpabilidade moral, a fim de fazer-nos aceitar suas conclusões. Mas a nossa preocupação aqui está apenas em determinar se alguma implicação não-controversa do Agostinianismo está em desacordo com alguma afirmação bíblica.

Opção # 7: Deus pretende que suas criaturas pequem. Esta interpretação é mais trapaceira, pois existe nela uma ambiguidade residual. Deus quer que suas criaturas pequem no sentido em que Ele deliberadamente as ordena a pecar? Os agostinianos dizem que sim; mas o mesmo é verdade para os Molinistas (ver acima). Será que Deus pretende que suas criaturas pequem no sentido de que Ele, de alguma forma, torna o pecado das criaturas real como um fim em si mesmo, fim este que tem Sua aprovação? Os agostinianos dizem que não. Os molinistas afirmarão que, mesmo que Deus (de acordo com eles) deliberadamente ordene o pecado ao “fracamente” tornar real um possível mundo , Ele o faz apenas como um meio para um fim: como um meio de acarretar um bem maior. Muito bem, só que os agostinianos podem afirmar a mesma coisa (alternativamente, os molinistas podem apelar ao princípio do duplo efeito, mas, novamente, não vejo nenhuma razão que impeça os agostinianos de fazerem o mesmo). De toda forma, somos apresentados mais uma vez a uma interpretação de “autor do pecado” incapaz de distinguir o agostinianismo do molinismo.

Opção #8: Deus diretamente causa suas criaturas a pecarem. Suspeito que isso seja  próximo ao que muitos molinistas têm em mente quando fazem a acusação de que o agostinismo (ou calvinismo) faz de Deus o autor do pecado. No entanto, está longe de ser claro que o agostinianismo esteja comprometido com tal noção. Eu notei anteriormente que é questionável que o agostinianismo esteja comprometido com o determinismo divino causal. Mesmo que fosse, isso não implicaria que Deus diretamente faz com que suas criaturas pequem (ao invés de, digamos, determinar por meio de causas intermediárias ou de algum tipo de causação negativa). Mas suponhamos, por razões de argumentação, que o agostinianismo afirma ou insinua (e que o molinismo nega) que Deus diretamente causa o pecado de suas criaturas. A questão está em determinar se isso é contraditado por qualquer afirmação bíblica direta. Eu não conheço nenhum texto bíblico que possa ser tomado como tal. Na verdade, existem alguns textos bíblicos que indicam a ação divina direta sobre a vontade humana (ou sobre as faculdades humanas, de modo a obter certas escolhas). No entanto, teremos mais sobre esse ponto em um post futuro. Por enquanto, podemos simplesmente dizer que esta opção não é mais promissora que as precedentes.

Antes de prosseguir, vale a pena dar uma olhada em como alguns agostinianos entenderam a frase “autor do pecado”. Considere as seguintes afirmações da Confissão de Fé de Westminster:

Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.

[…]

A onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita, e regula e governa em uma múltipla dispensação mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado nem pode aprová-lo.

Observe primeiro que a confissão nega explicitamente (duas vezes!) que Deus é o autor do pecado. No entanto, também afirma que Deus infalivelmente ordenou “tudo o que acontece” e, portanto, ela também rejeita várias das interpretações que foram consideradas acima (# 1, # 2, e provavelmente # 3). A afirmação de que Deus não aprova o pecado é suficientemente clara: Deus, sendo puro e santo, não tem prazer no (nem aprova o) pecado como pecado. Mas o que se entende por “autor do pecado” então? O indício está nas cláusulas coordenadoras: “nem violentada é a vontade da criatura” (3.1) e “a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus” (5.4). A noção central, eu entendo, é que o pecado é sempre uma ação da criatura e nunca uma ação divina. As criaturas cometem atos malignos, mas Deus nunca comete atos malignos ainda que Ele preordene os atos malignos das criaturas (que não é a mesma coisa).

O QUE SERÁ QUE A BÍBLIA DIZ?

Lembre-se de que estamos tentando tratar a seguinte questão: o molinismo goza de mais apoio bíblico que as visões alternativas sobre a providência divina e a presciência? Aqui estamos especificamente avaliando se o Molinismo tem alguma vantagem sobre o Agostinianismo, na medida em que este último torna Deus, de algum modo, o “autor do pecado”. Portanto, precisamos considerar o que os ensinamentos ou textos bíblicos tem a falar sobre esta questão.

A Bíblia em nenhum lugar usa a frase “autor do pecado” (ou “autor do mal”). No entanto, há um texto comumente citado para apoiar a alegação de que Deus não é o autor do pecado:

Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: “Estou sendo tentado por Deus”. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. (Tiago 1:13)

A negação é suficientemente clara: Deus não tenta ninguém a pecar (o verbo grego é peirazo, que é uniformemente traduzido como tentar em traduções para o português). Agora, por que alguém pensaria que o Agostinianismo afirma ou implica em Deus tentar as pessoas a pecar? Como o versículo 14 deixa claro, tentar a pecar envolve atrair e seduzir ao pecado. A ideia é que o tentador coloca alguma coisa diante de uma pessoa, ou o coloca em alguma situação, na esperança de que essa pessoa será inclinada, motivada ou atraída a cometer um pecado. Na Bíblia, é claro, o tentador paradigmático é Satanás, e as tentações paradigmáticas são as de Adão (por Satanás através de Eva, Gênesis 3:1-6) e de Cristo (diretamente por Satanás, Mateus 4:1-11).

No entanto, nenhum dos princípios do agostinianismo implica que Deus tentaTemptation as pessoas a pecar. Tentar é certamente uma maneira de trazer o pecado, mas não é a única maneira (vale a pena lembrar que os Molinistas também estão comprometidos com a ideia de que Deus “traz” o pecado em algum sentido). Tentar implica certos meios e motivações por parte do tentador. Mas seria totalmente errado pensar que tais meios e motivações são componentes necessários da providência divina na visão agostiniana; Isto é, pensar que Deus pode ordenar de maneira determinística os pecados de suas criaturas apenas ao tentar essas criaturas. Com tudo isso a dizer, o Agostiniano irá alegremente se juntar a todos os outros cristãos que negam que Deus tenta alguém a pecar, e não há inconsistência demonstrável de sua parte em fazê-lo.

Até onde eu saiba, os únicos outros textos citados em apoio à alegação de que Deus não é o autor do pecado são aqueles numerosos textos que atestam a santidade absoluta de Deus e Sua pureza moral (por exemplo, Isaías 6: 3, Hab.1: 13, Tiago 1:17, 1 João 1: 5). Mas as mesmas considerações de Tiago 1:13 se aplicam a esses textos. O agostinianismo não nega a santidade absoluta e a pureza moral de Deus – pelo contrário, esse é um dos seus princípios essenciais – e não se pode demonstrar que o determinismo divino compromete esse princípio sem recorrer (mais uma vez) a teses filosóficas discutíveis sobre o livre arbítrio e responsabilidade moral.

UM ESTUDO DE CASO: A CRÍTICA DE CRAIG

Vamos encerrar as coisas examinando um exemplo de um influente filósofo cristão argumentando que o Molinismo deve ser preferido ao Agostinianismo/Calvinismo, pois evita fazer de Deus o autor do pecado (a acusação de “autor do pecado” proferida contra o Calvinismo foi feita por Jerry Walls e Roger Olson, entre outros, mas como eles não são molinistas, seus argumentos são menos relevantes e instrutivos).

Respondendo à defesa da opinião reformada feita por Paul Kjoss em Quatro Visões sobra a Providência Divina, William Lane Craig escreve:

O determinismo divino universal faz de Deus o autor do pecado e nega a responsabilidade humana… Em contraste com a visão molinista da concorrência simultânea, a visão determinista sustenta que mesmo o movimento da vontade humana é causado por Deus. Deus move as pessoas a escolherem o mal, e elas não podem fazer o contrário. Deus determina suas escolhas e faz com que façam o mal. (pp. 60-61)

Observe que há duas críticas distintas aqui: (1) o determinismo divino “faz de Deus o autor do pecado” e (2) o determinismo divino “nega a responsabilidade humana”. A segunda crítica é basicamente a objeção incompatibilista que eu discuti anteriormente. Quanto à primeira, observe que Craig em lugar nenhum define ou explica a frase “autor do pecado”. Ele parece assumir que é algo auto-explicativo, quando na verdade é suscetível a várias interpretações.

No entanto, ele prossegue e declara a objeção em outras palavras. “Deus move as pessoas a escolher o mal” – mas em que sentido? Se isso significa simplesmente que Deus determina, por algum meio amplamente causal, que suas criaturas pequem, então isso não passa de uma reformulação da posição Agostiniana. Se isso significa que Deus de alguma forma age diretamente na vontade humana, apontando-a a uma escolha pecaminosa como um dedo que força uma agulha de bússola contra sua direção natural, então Craig precisa mostrar que o Agostinianismo está comprometido com tal noção.

Craig afirma ainda que, na visão agostiniana, “Deus determina suas escolhas e faz com que elas façam o mal”. A primeira parte desta frase, novamente, nada mais faz do que afirmar a visão agostiniana. A segunda parte me parece uma ambiguidade calculada. Deus “faz” com que as pessoas façam o mal – mas em que sentido? Se “fazer” é sinônimo de “causa”, então, mais uma vez, isso simplesmente reafirma a reivindicação agostiniana. Eu suspeito, no entanto, que a maioria dos leitores entenderá o “fazer” aqui como algo parecido com coerção (compare com a frase:  “Francisco fez Estevão tomar o dinheiro”). No entanto, na visão agostiniana, Deus não coage nenhuma de suas criaturas a pecar. A objeção de Craig aqui parece assumir uma visão incompatibilista do livre-arbítrio, que é um dos pontos em disputa entre agostinianos e molinistas.

Craig continua:

Se é mau fazer alguém fazer algo errado, então sob esta visão, Deus não só é a causa do pecado e do mal, mas torna-se o próprio mal, o que é absurdo. (pp 61)

Temos que fazer algumas observações aqui. Primeiro, parece que Craig está realmente tomando “fazer” como sinônimo de “causar”. Em segundo lugar, Craig aparentemente admite que a causalidade divina como tal não implica que Deus é o mal ou o autor do pecado. Ao invés disso, ele tem que apelar a um princípio auxiliar, a saber, que se uma pessoa causa (“faz”) alguém pecar, então essa pessoa é má (ou pelo menos comete um mal). O problema é que Craig não nos dá nenhuma razão para aceitar esse princípio. Os agostinianos devem certamente negá-la, pelo menos no que diz respeito à causação divina. Então, por que eles não deveriam negá-lo?

Mais tarde, no mesmo livro, como parte de sua defesa do Molinismo, Craig retorna à objeção do “autor do pecado”:

A perspectiva agostiniano-calvinista… interpreta as passagens bíblicas, como as citadas acima, como significando que a presciência se baseia na pré-ordenação. Deus sabe o que vai acontecer porque Ele faz isso acontecer. Conhecendo as intenções de Sua vontade e de Seu poderoso poder, Deus sabe que Seu propósito será cumprido. Mas essa interpretação inevitavelmente faz de Deus o autor do pecado, pois foi Ele quem moveu Judas, por exemplo, a trair a Cristo, um pecado que fez merecer a perdição eterna para o infeliz Judas. Mas como pode um Deus santo mover as pessoas a cometerem o mal moral e, além disso, como essas pessoas podem então ser consideradas moralmente responsáveis por atos sobre os quais eles não tinham controle? A visão agostiniano-calvinista parece, de fato, transformar Deus no Diabo. (pp. 91)

Observe que duas objeções distintas são postas novamente juntas: Deus “mover” as pessoas a pecar (1) torna Deus o autor do pecado e (2) implica que essas pessoas não podem ser responsabilizadas pelos seus pecados (a objeção incompatibilista). Mas o que se quer dizer por Deus “mover” as pessoas a pecar? Se “mover” (como o “fazer” anterior) é apenas um sinônimo de “causar”, então Craig não está fazendo nada mais do que reformular a visão agostiniana e, em seguida, afirmar que ela torna Deus culpado pelo pecado. Se “mover” significa algo mais específico, como causar ou agir diretamente, os agostinianos podem razoavelmente se perguntar por que eles devem ser cometidos a tal ideia (ver # 8 acima). Finalmente, se “mover” for considerado como coagir, os agostinianos objetarão que Craig está pressupondo suas conclusões ao assumir o incompatibilismo.

Em conclusão, não posso ver Craig oferecendo qualquer bom motivo para pensar que o agostinianismo faz de Deus o “autor do pecado” em qualquer sentido que seja censurável, e menos ainda que transforma Deus “no Diabo”. Craig tampouco mostra que o Agostinianismo está numa posição pior do que o Molinismo com respeito a Deus ordenando os pecados de suas criaturas.

Resumindo tudo o que foi dito acima: a frase “autor do pecado” é trapaceira e aberta a muitas interpretações diferentes, no  entanto não parece haver qualquer interpretação consistente de “autor do pecado” que satisfaça as três condições seguintes: (i) o agostinianismo afirma ou indiscutivelmente implica que Deus é o autor do pecado; (ii) o Molinismo nega que Deus é o autor do pecado; (iii) a Bíblia nega que Deus é o autor do pecado (no correspondente sentido que foi dado).

Postscript: Digo muito mais em resposta à acusação de que o Calvinismo faz de Deus o autor do pecado em meu ensaio “O Calvinismo e o Primeiro Pecado” publicado no livro “Calvinismo e o Problema do Mal“. Vários outros ensaios nesse volume abordam a mesma crítica e de várias maneiras, mas, em especial, dê uma olhada no capítulo “Molinistas Pistoleiros: Deus e a Autoria do Pecado“, de Greg Welty, que argumenta (por meio de uma analogia inspirada) que se a descrição calvinista da providência divina torna Deus culpado pelos pecados de suas criaturas, a descrição molinista também o faz.


Autor: James N. Anderson
Tradução/adaptação: Erving Ximendes
Fonte: How Biblical is Molinism (Part 4) – Proginosko

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