Colocando as cartas na mesa: o tema da redação do Enem e a intolerância da Internet

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Os comentários nas redes sociais sobre o tema da redação do maior exame nacional do país, o Enem 2016, foram unânimes: o MEC acertou na escolha do tema. Em toda a internet, de professores a comentaristas políticos e, inclusive, teólogos concluíram ser o tema pertinente e atual. Entretanto, nota-se, nesses comentários, certa confusão sobre o termo laicidade e também uma tendência a ver intolerância por parte, apenas, das religiões cristãs. A verdade é que laicidade não é assumir que todas as religiões estão certas e muito menos assumir que todas estão erradas; e não, não foram os cristãos que inventaram a intolerância.

Pois bem, os estudantes que foram ao segundo dia de prova do Exame Nacional do Ensino Médio tiveram 5h30 para discorrer sobre o tema “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”, além de responder 90 questões das provas de Linguagens e Matemática. Os estudantes, portanto, deveriam formular uma proposta de intervenção, que de acordo com o próprio enunciado seria a solução para combater/reprimir a intolerância religiosa no Brasil. A prova dispôs de quatro textos motivadores, uma nota do Ministério Público sobre a laicidade do Estado, um trecho da Constituição Federal; por fim, dois fragmentos de reportagens, destacando a violência religiosa como crime inafiançável e o número de denúncias sobre discriminação de crença, compuseram a coletânea.

A coletânea, portanto, é bastante precisa por dar provas com dados de que há intolerância no país e o foco deveria ser o combate à discriminação religiosa. E segue a mesma linha de temas sociais do ano anterior (a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira), já que em outros anos dividiu as opiniões dos estudantes quanto a movimento migratório e também quando o tema foi publicidade infantil. Neste ano, não há como defender a intolerância, pois, assim como no ano passado, é se colocar contra os direitos humanos e ao próprio edital do Enem.

Porém, o que se tem visto na internet é um desvio da proposta do tema já que, em alguns comentários, os estudantes parecem colocar evangélicos como os principais alvos de críticas e os mais intolerantes. Um dos comentários mais curtidos na página Esquerda Revolucionária, que publicou a imagem abaixo, diz o seguinte: “Se alguém te ofendeu por ser cristão isso é lamentável e essa pessoa é um babaca. Mas babaquice não é Cristofobia (sic)”.

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Imagem publicada pela página Esquerda Revolucionária

Não sei se é babaquice, mas se há ofensa por ser cristão é crime de intolerância religiosa. Aliás, um dos excertos de reportagens nos textos de apoio para a redação do Enem, apresenta um gráfico em que os evangélicos aparecem em segundo lugar como vítimas de discriminação religiosa, atrás dos fiéis de religiões de matrizes africanas.

O que se vê realmente é que até mesmo professores, em vez de usarem o tema da redação para debater a intolerância religiosa e os meios para combater a discriminação, utilizaram o tema como pretexto para atacar evangélicos e seus símbolos sagrados. Como que vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso não seja um dos crimes de intolerância, simplesmente por ser ato ou objeto de culto cristão.

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Não nego que há de fato intolerantes entre os evangélicos e acredito que o neopentecostalismo e a doutrina da batalha espiritual (o confronto contra os demônios e outras forças malignas) sejam os principais motivos para que as religiões afro-brasileiras sejam as maiores vítimas de discriminação religiosa. Há uma espécie de rivalidade entre os neopentecostais com respeito às religiões afro (Mana vol.13 no.1 Rio de Janeiro Apr. 2007), provocada pela heresia maniqueísta de que o Bem e o Mal lutam de igual para igual pelas almas da humanidade.

Mas assim como o tema intolerância traz à tona nas redes sociais o caso da menina Kailane, apedrejada por evangélicos, deveria também estar na discussão o espancamento de um homem que foi defender a sobrinha vítima de discriminação e preconceito por ser evangélica (confira a notícia aqui) ou da perseguição e dificuldades que os cristãos têm em professar sua fé ao redor do mundo (conforme exposto no Spotniks e no Portas Abertas). Ou então estaremos apenas repetindo discursos de intolerância ao cristianismo ou participando de um movimento contra aquilo que chamam de “epidemia evangélica”, como tem sido pixado nos muros da cidade. Não se discute intolerância com discursos intolerantes, generalizações e ataques, mas colocando todas as cartas na mesa e provocando um debate sério, na busca por achar meios para combater a discriminação.

Outro tópico interessante das discussões na internet, e que poderia ser abordado no texto dissertativo-argumentativo dos estudantes no Enem, é sobre a laicidade do estado. A coordenadora de Redação do colégio e curso Poliedro, Gabriela Carvalho, acredita que um dos textos de apoio era uma referência irônica a bancada evangélica: “… Havia um texto que falava sobre o Estado laico, o que talvez fosse uma cutucadinha na bancada evangélica, mas eram todos textos mais objetivos e menos opinativos”.

Se for uma referência ou não, o fato é que muitos dos comentários confundiram laicidade com secularismo. Por exemplo, uma das propostas de intervenção da professora Gabriela é a retirada de símbolos religiosos de locais públicos. Isso somado ao fato de maioria dos comentários nas redes sociais falarem sobre acabar com a bancada evangélica, como se os cristãos fossem desprovidos de representação democrática.

John Hendryx, como se respondesse a esses comentários, diz:

“É incrível, para mim, que eles não consigam ver o quão excludente isso é e como isso deixa o poder nas mãos dos secularistas apenas. Eles pensam: “os outros estão proibidos de falar na praça pública porque eles são religiosos, mas nós podemos porque nós não somos religiosos.”

Na verdade, os que colocam os evangélicos como inimigos do Estado Laico e defensores de um Estado Teocrático (sem Theos), esquecem uma doutrina fundamental no Cristianismo: a de que somos todos pecadores, corruptíveis. Para John Hendryx, uma vez reconhecido esse estado, não podemos, então, viver sem leis restritivas e sem equilíbrio de poder. Ou seja, para estabelecer a forma mais justa de governo, os cristãos devem procurar leis que glorificam a Deus e a Sua Lei, mas devem promover isso dentro de um contexto de governo limitado (com freios, contrapesos e regras) de modo a promover o maior bem, evitando a tirania de qualquer grupo, incluindo o próprio grupo cristão. Por outro lado, nada de direito divino de reis, mulás nos governando, padres ou igrejas obrigando, ditadores, oligarquia, dominialistas da esquerda ou da direita ou qualquer outro sistema de governo desumanizante.

Apesar de termos uma bancada evangélica corrupta e que busca poder ao invés de equilíbrio e leis justas, defender a sua extinção não é defender um país laico. Uma coisa que muitos professores e comentaristas nas redes sociais não conseguem enxergar é que essa ideia de Separação entre Igreja e Estado que exclui os cristãos de representatividade não é religiosamente neutra. O que há por trás é a imposição de um código moral secular na sociedade (sendo que este, de fato, apresenta tanto afirmações quanto negações sobre a natureza do bem e do mal).

Desse modo, entendemos que os secularistas não estão isentos da cláusula de separação entre Igreja e Estado. A cláusula, no entanto, é mais abrangente: todos os pontos de vista estão incluídos na separação entre Igreja e Estado (isto é, nenhuma religião pode ser favorecida pelo governo, incluindo o secularismo). Logo, todas as religiões e cosmovisões podem falar livremente na praça pública e competir no livre mercado de ideias… Isso está bem mais perto de liberdade. Lembrem-se, nós vivemos em um país laico, não em um país secular.

Infelizmente, se considerarmos os comentários nas redes sociais, estamos bem distantes de encontrarmos caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil. Estamos muito mais interessados em acusar o outro daquilo que cometemos. Não deixa de ser igualmente triste que essas informações sejam desconhecidas por grande parte dos estudantes que, em um debate interessante para o país, repetiram o discurso fácil de seus professores. Estes, num discurso moderno e vazio, imprimem a própria ditadura de ideias, retirando as cartas da mesa.


Autor: Ebson Wilkerson

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Um comentário em “Colocando as cartas na mesa: o tema da redação do Enem e a intolerância da Internet

  1. Jesus, porém, respondendo, disse-lhes:
    Errais, não conhecendo as Escrituras,
    nem o poder de Deus. Mateus 22:29
    .
    Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis;porque,
    que sociedade tem a justiça com a injustiça?
    E que comunhão tem a luz com as trevas?
    2 Coríntios 6:14

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