Dispensacionalismo – Um retorno às sombras

O problema com a interpretação dispensacionalista do milênio tem a ver com a forma como se deve entender o fluxo geral da história da redenção. Ao longo do Antigo Testamento, cada profeta de Israel descreveu a vinda da era messiânica em termos de sua própria época e lugar. O que é especialmente relevante nessa questão é o fato de que os profetas falavam da gloriosa era messiânica que estava por vir em termos dos tipos e sombras associados à antecipação messiânica veterotestamentária.
Mas os tipos e sombras do Antigo Testamento são posteriormente reinterpretados sob a maior luz resultante da encarnação de Cristo no Novo Testamento. É por isso que um dos principais aspectos da escatologia da era do NT é que o que foi prometido no AT havia sido cumprido em Jesus Cristo. O padrão redentivo-histórico move-se claramente na direção tipo-sombra para cumprimento/realidade. Sendo esse o caso, os autores do Novo Testamento antecipam a consumação final das promessas na volta de nosso Senhor e não num retorno a um governo terreno entendido em termos de tipos do Antigo Testamento e sombras que estavam destinadas a passar de uma vez por todas.

Por exemplo, quando os profetas falam da restauração de Israel, o Novo Testamento afirma que esta promessa de restauração se realiza em Jesus Cristo, o verdadeiro Israel (para uma discussão mais detalhada clique aqui: Jesus Christ, the true Israel). Quando os profetas falam da terra de Canaã, a cidade de Jerusalém e o monte do Senhor, os autores do Novo Testamento, por sua vez, apontam que estes temas são cumpridos em Cristo e sua igreja. Em muitos casos, eles fazem isso como uma polêmica contra os judeus que não aceitaram Jesus como o Messias de Israel, enviado por Deus para redimir o Seu povo dos seus pecados. A interpretação literal das passagens messiânicas do Antigo Testamento é fornecida pelo Novo Testamento. Portanto, a expectativa profética do AT não deve ser a base para uma compreensão escatológica do NT.

A fim de compreender o ensino bíblico sobre o milênio, devemos determinar como os vários autores do Novo Testamento aplicam a tipologia messiânica a Jesus Cristo, e como, por sua vez, Jesus Cristo cumpre a expectativa messiânica do Antigo Testamento, garantindo assim a sua segunda vinda e a consumação final das promessas.

O que é especialmente problemático sobre o entendimento dispensacionalista da era milenar é que o milênio é equivalente a um retorno aos tipos e sombras associados com os profetas do Velho Testamento e a compreensão tipológica da era messiânica, que já foi realizado em Jesus Cristo.

Uma vez que Cristo veio e cumpriu essas expectativas proféticas, como é que o dispensacionalista pode justificar a sua crença de que a futura era milenar seja caracterizada por uma economia redentora de tipos e sombras, quando a realidade a que estas coisas apontavam, já chegou? Essa expectativa milenar pré-messiânica e veterotestamentaria só pode ser justificada por uma história da redenção caracterizada por uma meia-volta. (Para mais informações, veja: Jesus Christ, the true temple).

De acordo com os dispensacionalsitas, os tipos e sombras são cumpridos em Jesus Cristo, que, por sua vez, supostamente os reinstitui na era milenar. Isso é altamente problemático e faz grande violência ao sentido geral da história bíblica. Esta característica peculiar do dispensacionalismo explica o aumento de popularidade da posição conhecida como dispensacionalismo progressivo, que procura evitar este aspecto altamente problemático do Dispensacionalismo tradicional.

Esse suposto retorno aos tipos e sombras durante a era milenar é visto na interpretação dispensacionalista das alianças Abraâmica e Davídica. Quando os dispensacionalistas afirmam que a terra prometida na aliança abraâmica não foi dada a Israel, eles vão diretamente contra as afirmações de Paulo de que a aliança abraâmica foi cumprida em Jesus Cristo, uma vez que até mesmo as nações que abraçam a promessa messiânica através da fé são filhos de Abraão e membros desta aliança (Gálatas 3: 15-29; Romanos 4: 1-25).

É o próprio Paulo quem “espiritualiza” a promessa de uma terra na Palestina que originalmente se estendia desde o rio do Egito até o Eufrates, (Gênesis 15:18) para incluir agora o mundo inteiro (Romanos 4:13).

Esta mesma tendência a ignorar a maneira em que os escritores do Novo Testamento aplicam as expectativas messiânicas do Antigo Testamento a Cristo pode ser vista na insistência dispensacionalista em dizer que Cristo ainda não cumpriu a aliança davídica de 2 Samuel 7 uma vez que, supostamente, isso não irá ocorrer até a era milenar, quando Jesus governar a terra sobre o trono de David em Jerusalém. Mas os escritores do Novo Testamento não poderiam ser mais claros ao ensinar que essa profecia foi cumprida no momento da ressurreição e ascensão de nosso Senhor, quando Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos e o exaltou, assentando-o à sua direita no Céu. Pedro afirma que este evento cumpre a promessa messiânica de Deus a Davi de que um de seus próprios descendentes se sentaria no seu trono (Atos 2: 30-35). Na verdade, é justamente porque Jesus cumpriu essa promessa que Pedro exorta, no primeiro domingo de Pentecostes, seus companheiros judeus no templo a se arrempederem e serem batizados.

Finalmente, a interpretação dispensacionalista da história da redenção depende de uma leitura distinta da grande profecia messiânica de Daniel 9:24-27, que supostamente coloca a septuagésima semana de Daniel no futuro.

Como já argumentei em outros lugares, a profecia de Daniel é gloriosamente cumprida em Jesus Cristo, que em sua obediência ativa e passiva terminou a transgressão, pôs fim no pecado, expiou a iniqüidade, trouxe a justiça eterna, selou a visão e a profecia e ungiu o Santíssimo (v. 24). Uma vez que o Messias foi cortado no meio da septuagésima semana e fez uma aliança com seu povo (vv. 26-27), a profecia das setenta semanas foi cumprida por Jesus Cristo no momento de seu primeiro advento.

Portanto, não existe período de sete anos de tribulação futura como ensinado pelos dispensacionalistas, nem a Bíblia prevê um tratado de paz a ser feito entre o Anticristo e a nação de Israel. Essas são as duas características essenciais da expectativa dispensacionalista para o futuro (Leia mais sobre isso em: What About the Remaining 3 1/2 Years in Daniel’s Prophecy of the Seventy Weeks?).

Devido a esses fatores, os amilenistas acreditam que a compreensão dispensacionalista da história da redenção em geral e da era milenar em particular é seriamente torta. A era milenar não é descrita na Bíblia como um retorno aos tipos e sombras do Antigo Testamento, com Jesus governando a terra a partir do trono de David em Jerusalém e com os crentes adorando no templo e realizando sacrifícios animais. Ao invés disso, os dados bíblicos demonstram que o milênio é a época atual, em que Jesus Cristo governa a terra do céu e onde seus santos, que não adoram a besta nem a sua imagem, triunfam na morte e entram na vida para reinar com Cristo por mil anos. O reino milenar de Cristo é uma realidade presente.


Fonte: A Return to Types and Shadows in the Millennial Age?
Autor: Kim Riddlebarger
Tradução: Erving Ximendes

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s