Devemos ler apenas a tradução ACF? – Parte 2

No post anterior vimos como os crentes de Cártago defendiam, por pura tradição, a Septuaginta. No texto de hoje iremos ver que a controvérsia se repetiu aproximadamente 1100 anos depois, numa época em que a tradução de Jerônimo, mais conhecida como Vulgata, se tornou o padrão na Europa.

No começo do século XVI, a Vulgata era a Bíblia de “todos” e havia tomado a mesma posição que a Septuaginta possuía na mente dos cristãos um milênio atrás. Da mesma maneira que Jerônimo se meteu em problemas com sua “nova” tradução, um grande acadêmico veio novamente a causar tumulto. Esse homem era Desidério Erasmo.


Erasmo de Roterdã, escritos holandês.

Erasmo é conhecido hoje como o “Príncipe dos Humanistas”. No entanto, devemos ter cuidado com o termo “humanista” aqui. Erasmo não era de maneira alguma um secularista moderno que repuldia a ideia de existir um Deus. Ele era uma pessoa que achava que Deus havia dado certas habilidades mentais ao homem e que esse, por sua vez, deveria cultivá-las para a glória de Deus. O lema dos humanistas do século XV e XVI era o “ad fontes!“, isto é, “direto às fontes!”. Esses indivíduos não queriam ouvir a opinião dos homens da maneira em que elas foram transmitidas através dos séculos. Eles queriam ir direto às fontes, diretamente aos documentos antigos para que pudessem aprender por eles mesmos.

Essa nova curiosidade renovou a ênfase dada aos textos originais da Bíblia. Apesar de a Vulgata latina ter tido um papel muito imporante durante séculos, nesse instante os homens estavam tentando examinar a base sobre a qual a Vulgata havia sido traduzida. Durante o século XV um humanista italiano chamado Lorenzo Valla começou a estudar as obras de Jerônimo. Ele descobriu que o texto presente nas Bíblias que circulavam na Europa naquela época diferia em vários lugares do texto que ele encontrou nos comentários bíblicos feitos por Jerônimo. Ele argumentava que uma vez que os comentários de Jerônimo eram pouco lidos e, portanto, pouco copiados, seria menos provável que eles tivessem sofrido mudanças quando copiados a mão. Como resultado, ele produziu uma versão corrigida da obra de Jerônimo, uma versão que, de fato, era muito mais próxima aos originais de Jerônimo que o texto usado pela Igreja Romana em sua época.

É difícil para os leitores modernos entenderem a situação nos dias de Erasmo e Valla. Valla não chegou a publicar suas descobertas referentes à Vulgata  de Jerônimo, e talvez isso tenha sido até melhor para ele. Fazer esse tipo de trabalho era uma coisa perigosa. A Igreja Romana olhava para os humanistas com suspeitas. Os líderes religiosos não entendiam a razão para alguém querer aprender grego já que o Latim era a linguagem da Igreja e era a língua que Deus havia usado para preservar a Bíblia, isto é, a Vulgata. Se aprender grego era algo suspeito, aprender hebraico era algo totalmente herético. O hebraico era a língua dos Judeus e todo mundo sabia, naquela época, que os judeus eram hereges perigosos. Além disso, o único jeito de aprender hebraico na época era estudando com um rabino. Apesar de ficarmos chocados com esse tipo de pensamento hoje em dia, essa era uma ideia comum que os cidadãos da Europa tinham há apenas alguns séculos atrás.

Anos depois da morte de Valla, Erasmo se deparou com suas notas sobre a Vulgata e ficou tão impressionado que resolveu se arriscar e as publicar. O interesse de Erasmo sobre o texto da Bíblia o induziu a um trabalho árduo para publicar a primeira edição impressa do Novo Testamento Grego. Teremos muito a comentar sobre a obra de Erasmo mais para frente já que ela se tornou a base do Novo Testamento encontrado na Bíblia King James e na tradução ACF.

Erasmo recebeu críticas de Martin Dorp, Johann Eck (um dos adversários de Lutero), Edward Lee, Diego Lópes Zuñiga e muitos outros. Todos eles foram muito duros afirmando que Erasmo havia “alterado” a palavra de Deus (ou assim eles acreditavam). No entanto, queremos destacar um elemento da resposta de Erasmo aos seus adversários:

“Devemos distinguir as Escrituras, a tradução das Escrituras e a transmissão de ambas. O que iremos fazer com os erros dos copistas?”  (Roland Bainton, Erasmus of Christendom, Charles Scribner’s Sons: 1969, p. 134)

Ou seja, o homem, que foi primeiramente responsável pela fonte dos textos gregos utilizados pelos tradutores da ACF e da King James, fala claramente da existência de erros de copistas nos manuscritos do Novo Testamento. Não se pode deixar passar a ironia que Erasmo estava enfrentando. Da mesma forma que a obra de Jerônimo havia recebido críticas por ser “nova” e “radical” no século V, Erasmo estava sendo censurado por ousar “mudar” as palavras de Jerônimo! O que antes era novo havia se tornado tradição! O que era radical havia se tornado a norma pela qual todas as outras obras seriam julgadas e aqueles que haviam se apaixonado pela tradição estavam furiosos com Erasmo da mesma forma que as multidões em Cartágo estavam há alguns séculos atrás.

Portanto, vemos outra vez na história da Igreja uma tradução da Bíblia se tornando a norma após séculos de uso. Quando uma nova tradução aparece, uma reação violenta prontamente entra em erupção. As mesmas emoções que dirigem a controvérsia em torno da ACF hoje não parecem ser nem um pouquinho novas. Esse é um fenônemo que já vimos antes.


Autor: Erving Ximendes
Fontes utilizadas:

The King James Only Controversy – James White;

Erasmus of Christendom – Roland Bainton;

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