Devemos ler apenas a tradução ACF? – Parte 1

A humanidade parece ter um desejo intenso de mudança. Nós sempre estamos dispostos a experimentar coisas “diferentes”. A maioria de nós acredita que podemosmelhorar nossa vida e nosso meio. A chave para isso sempre é: mudança.

No entanto, mudar pelo simples desejo de mudar não é uma virtude cristã. Esse tipo de atitude pode ser um  mandamento das revistas e novelas mas com certeza não é um mandamento das Escrituras. Estar contente com os dons e as provisões de Deus é certamente uma característica rara dos cristãos de hoje.

Em questões religiosas, dois extremos estão sempre presentes: aqueles que procuram novidades na experiência religiosa e aqueles que resistem a todo tipo de mudança. No entanto, os crentes devem andar no caminho estreito entre essas duas posições. Nunca devemos procurar “novas verdades” que nos levem além daquilo que Deus já nos revelou em Jesus Cristo. Atitudes desse tipo revelariam um profundo equívoco ao interpretar as riquezas que já são nossas em Jesus. Ao mesmo tempo, não devemos chegar ao ponto onde estamos tão apegados as nossas tradições (ao nosso “jeito de fazer as coisas“) que nos tornamos indispostos a melhorar o nosso serviço para com Cristo. A chave é o equilíbrio.

Quando chegamos na questão de traduções da Bíblia, novamente encontramos os dois extremos. De um lado temos aqueles que procuram fazer traduções distintas para cada grupo e subgrupo que existe em nosso país. Será que realmente precisamos de traduções diferentes para homens, mulheres, idosos, surfistas, etc? Acredito eu que não. No entanto, do outro lado encontramos aqueles que dizem defender a “antiga verdade” das Escrituras, se prendendo a uma tradução feita no século XVII e soltando frases de efeito do tipo “Se era bom para o Apóstolo Paulo, é bom para mim!“. Se esses indivíduos tirassem um pouco tempo para estudar a história da Igreja, ficariam surpresos em encontrar esses mesmos argumentos em campos estrangeiros. Pois, veja bem, essa não é a primeira vez que as pessoas argumentam que um texto em particular (uma determinada tradução) deve ser usado exclusivamente por aqueles que desejam ser fiéis a Deus. E da mesma forma que as pessoas no passado estavam em erro ao lançar estes argumentos, os defensores do “ACF somente” também estão.

Agostinho e Jerônimo

Papiro Fouad #266, datado no primeiro século, contém seções do Velho Testamento em Grego, conhecido como Septuaginta (LXX).

Uma das primeiras tradições referente à Bíblia teve a ver com a tradução grega do Antigo Testamento conhecida como Septuaginta, frequentemente abreviada como LXX. Muitos cristãos acreditavam que a LXX era uma tradução inspirada do Antigo Testamento Hebreu. A estória era que 70 (ou 72) tradutores judeus deveriam traduzir os cinco primeiros livros da Bíblia (i.e. o Pentateuco) para o grego. Algumas versões do conto relatam uma cooperação próxima entre os tradutores, resultando em um produto particularmente puro enquanto que outras (posteriores) relatam o isolamento dos tradutores e estes, ao comparar os resultados finais, descobrindo que haviam produzido traduções idênticas, palavra por palavra (o que seria um sinal bem claro da providência e inspiração divina). Apesar de essas anedotas parecerem engraçadas hoje, elas carregavam um peso muito grande, especialmente numa época onde a única tradução das Escrituras que os cristãos primitivos tinham era, de fato, a LXX. É difícil não traçar o paralelo entre como a LXX era vista e como alguns crentes vêem a ACF hoje. Ambos enxergam algum tipo de evento miraculoso acontecendo na tradução dos documentos, apesar dos fatos que contradizem tal conclusão. Além do mais, é fácil de identificar o real motivo para esse tipo de compromisso a uma tradução. Um incidente nas vidas de Jerônimo e Agostinho irá nos ajudar a identificar a fonte de tal devoção.

No começo do século V, Jerônimo ofereceu uma nova tradução para o Latim do Antigo Testamento. O que tornava o seu trabalho único era o fato de que ele era baseado no Antigo Testamento original escrito em hebraico e não na versão grega da LXX. Jerônimo era um dos pouquíssimos cristãos primitivos capazes de ler tanto Hebraico como Grego. A medida que ele traduzia do hebraico, sua versão variava tanto em conteúdo quanto em estilo (Jerônimo não se sentia obrigado a aceitar todas as interpretações encontradas na LXX). Quando sua tradução chegou na África do Norte, houve um tumulto nas igrejas supervisionadas por Agostinho, o bispo de Hipona. Agostinho contestou a tradução feita por Jerônimo e explicou o porquê em uma carta direcionada a ele, escrita em 405 d.C:

Minha única razão em opor-me à leitura pública da sua tradução a partir do hebraico nas nossas igrejas foi para evitar que, ao apresentar algo que parecesse novo e contrário à autoridade da versão Septuaginta, perturbássemos com grave motivo de contrariedade os rebanhos de Cristo, cujos ouvidos e corações acostumaram-se a ouvir aquela versão que tem o selo de aprovação dado pelos próprios apóstolos. (Carta LXXXII, The Nicene and Post-Nicene Fathers, Series I, Eerdmans: 1983, I:361)

Apesar de podermos apreciar a preocupação de Agostinho com o rebanho de Cristo, é importante notar que ele não contesta a tradução de Jerônimo por ela ser imprecisa mas sim por ser pouco familiar. Ele está baseando suas críticas sobre a tradição, não sobre as palavras que Jerônimo usou em sua tradução. Como quase ninguém podia ler Hebraico, os cristãos de Cártago estavam tomando a Septuaginta como “padrão”e a tradução de Jerônimo foi vista por muitos como uma ameaça a aquilo que era habitual, familiar e “amigável”.

Aqui encontramos uma das principais forças por trás do movimento “ACF somente“: tradição. Nós estamos familiarizados com o tom, o ritmo e a beleza poética encontrada nas bíblias de tradução João Ferreira de Almeida. Nós temos experiências espirituais associadas com a maneira que determinados versos são expostos. É natural, portanto, que tenhamos resistência a tudo aquilo que é apresentado como “mudança”. No entanto, é importante destacar que aquilo que nós aceitamos como “padrão” deve também ser examinado!

Por exemplo, no tempo da Reforma, os Reformadores tinham que constantemente desafiar as pessoas a examinarem com base nas Escrituras suas crenças tradicionais. Será que realmente existia base bíblica para acreditar em coisas como o Papado, o Purgatório e a oração aos santos?  Ou será que eram apenas tradições que foram ensinadas enquanto essas pessoas eram crianças?  Uma coisa não se torna verdadeira só porque ela foi ensinada a você quando criança. O mesmo é verdade para as traduções da Bíblia. Antes do tumulto, os crentes de Cártago deveriam ter se perguntado se a tradução de Jerônimo era mais fiel ou não ao que se encontra nos livros originais. Da mesma maneira, se a ACF é o seu padrão, você deve se perguntar o porquê você a aceita como padrão! De onde a ACF veio?  Quem traduziu?  Quais manuscritos foram usados na tradução?  Quem produziu tais manuscritos?  Você não acha que essas sejam perguntas importantes que devem ser respondidas por qualquer pessoa honesta que deseja “testar todas as coisas” (1 Tess. 5:21) como o Apóstolo Paulo recomendou?

A disputa entre Agostinho e Jerônimo não foi a última relacionado ao “texto tradicional”. Ironicamente, mil anos depois a discussão voltaria, só que dessa vez o texto de Jerônimo seria considerado o tradicional e disputaria lugar com outra tradução. No entanto, os detalhes dessa disputa ficam para o próximo post.


Autor: Erving Ximendes
Fonte utilizada: The King James Only Controversy – James White

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