O que os cristãos querem? Um estado laico, teocrático ou secular?

Comentários prévios do tradutor:

Recentemente me deparei com a seguinte postagem de uma dessas páginas “da zueira” (e que, para minha tristeza, era de caráter calvinista):
heresia
Eu sempre desconfiei que esse tipo de página só servia para criar espantalhos das posições contrárias. Agora vejo que elas ganharam um novo propósito: desenvolver uma geração de jovens que tem memes de Facebook por fundamentos teológicos (p que eu chamaria de Teologia de Meme). Mas o que mais me espantou foi o número de curtidas positivas desse post. Tendo em vista esse interesse repentino pela Teonomia nas redes sociais, achei que seria necessário postar um artigo falando sobre o tipo de governo que os cristãos devem aspirar. Segue aqui um ensaio de John Hendryx:


Apesar de toda a histeria midiática, a grande maioria dos cristãos não têm interesse em estabelecer um estado teocrático assim como não têm interesse em estabelecer um estado puramente secularista. Ambas as opções são igualmente repugnantes para nós. Aqui está o porquê. Os mulás secularistas são tão perigosos quanto os cristãos. Colocar poder demais nas mãos de qualquer pessoa (e isso inclui membros de denominações cristãs) é perigoso pois o homem é corruptível. É por isso que a ideia de um governo limitado com equilíbrio de poder é totalmente racional pois abrange as limitações pecaminosas dos seres humanos, sejam eles secularistas, cristãos, muçulmanos ou budistas.

Apesar de os cristãos terem conhecimento da única verdade, eles também sabem muito bem que são pecadores e, portanto, que não podem viver sem leis restritivas ou sem equilíbrio de poder. Logo, quando os cristãos falam da separação entre Igreja e Estado, eles colocam todas as cosmovisões debaixo desse guarda-chuva, incluindo também o secularismo. Porém, uma coisa que muitos secularistas não conseguem enxergar é que nem eles nem as suas ideias são religiosamente neutros. Ainda assim, eles parecem ter se convencido de que são…. mesmo que (ironicamente) eles queiram impor vigorosamente o seu próprio código moral na sociedade (sendo que este, de fato, apresenta tanto afirmações quanto negações sobre a natureza do bem e do mal). Mesmo diante dessa verdade óbvia, os secularistas surpreendentemente ainda querem isentar-se da cláusula de separação entre Igreja e Estado. É incrível, para mim, que eles não consigam ver o quão excludente isso é e como isso deixa o poder nas mãos dos secularistas apenas. Eles pensam: “os outros estão proibidos de falar na praça pública porque eles são religiosos, mas nós podemos porque nós não somos religiosos“. Mas se, por outro lado, entendemos a cláusula de uma maneira mais ampla sob a qual todos os pontos de vista estão incluídos na separação entre Igreja e Estado (isto é, nenhuma religião pode ser favorecida pelo governo, incluindo o secularismo), então todas as religiões e cosmovisões podem falar livremente na praça pública e competir no livre mercado de idéias … Isso está bem mais perto de liberdade. Lembre-se, nós vivemos em um país laico, não em um país secular.

Para estabelecer a forma mais justa de governo, os cristãos devem procurar leis que glorificam a Deus e a Sua Lei, mas devem promover isso dentro de um contexto de governo limitado (com freios, contrapesos e regras) de modo a promover o maior bem, evitando a tirania de qualquer grupo, incluindo o próprio grupo cristão. Vamos supor que os cristãos de fato obtivessem poder. Em qual denominação cristã você confiaria para impor as leis sobre o país? Se você conhece bem a si mesmo e à natureza do homem,  responderá que ninguém deveria ter tal poder. Considere o seguinte: provavelmente existem muitos grupos cristãos lá fora que acreditam que a denominação que você atende é herética. Como tal, sob uma teocracia, o magistrado civil tem o dever de executar os que promovem uma falsa religião publicamente (é bem possível que você seja executado como calvinista ou qualquer tipo de cristianismo que abrace). Que grupo de cristãos, então, você acha que seriam bons o suficiente para transcender esse tipo de abuso de poder? Dada a pecaminosidade do homem (e isso inclui os cristãos) quem é que pode implementar leis bíblicas de uma maneira perfeitamente justa? Quais seriam as restrições na lei que você permitiria existir sob tal teocracia? Isso é muito mais complicado do que a maioria pensa. Sim, estou plenamente de acordo com a maioria de vocês sobre o fato de precisarmos promover ativamente leis que são mais bíblicas, mas o meu argumento é que, devido ao nosso pecado, também deve haver contenção de poder (seja quem for o governante) através de freios e contrapesos. “Governo limitado”, nesse contexto, significa simplesmente o oposto de tirania, (ou seja, da teocracia e do secularismo, ambos totalitários), enquanto o “limitado” significa usar leis para restringir a capacidade desumanizante de nossa natureza pecaminosa. Nada de direito divino de reis, mulás nos governando, padres ou igrejas obrigando, ditadores, oligarquia, dominialistas da esquerda ou da direita ou qualquer outro sistema de governo desumanizante. O que digo é que, devido à corrupção do homem, todos nossos governantes precisam estar de acordo com as leis que os freiem. Os EUA foi historicamente estabelecido como com um governo limitado em resposta ao governo totalitário do Rei da Inglaterra e ao direito divino dos reis da Europa. Foi uma experiência de governo limitado em oposição à tirania.

Deixando claro: eu acredito que freios e contrapesos não são, em si, suficientes para manter uma forma justa de governo. Não são. Estou de acordo com a Bíblia, com os fundadores dos EUA e com filósofos gregos e romanos também, de que as leis virtuosas formam o primeiro requisito para a liberdade e que um povo virtuoso é necessário para que os freios e contrapesos sejam eficazes. A política pública deve ser guiada pela Lei de Deus. O meu objetivo não é excluir a lei de Deus da esfera pública, pois neutralidade religiosa não existe (as idéias religiosas de um indivíduo serão, obviamente, instituídas). Atualmente vivemos sob muitas das leis desumanas do secularismo. Meu objetivo era, sim, dizer que o estabelecimento das leis de Deus na política pública deve ser feito com muito cuidado, dadas as limitações do homem, sob um ambiente de freios e contrapesos… não que esses possuam algum tipo de virtude em si mesmos.

Nosso dever como cristãos, peregrinos num “Exílio Babilônico”, deve ser:

Edificai casas e habitai-as; e plantai jardins, e comei o seu fruto. Tomai mulheres e gerai filhos e filhas, e tomai mulheres para vossos filhos, e dai vossas filhas a maridos, para que tenham filhos e filhas; e multiplicai-vos ali, e não vos diminuais. E procurai a paz da cidade, para onde vos fiz transportar em cativeiro, e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz. (Jeremias 29:5-7)

Isso quer dizer que eu acredite que os cristãos devam retirar-se do governo? Não. Por favor, não confunda o que estou dizendo com a afirmação de que os cristãos deveriam abandonar seus princípios enquanto estiverem servindo no governo ou enquanto estejam votando nas urnas. Pelo contrário, devemos trabalhar dentro do sistema que Deus nos coloca para glorificar a Ele e a Sua lei. Considere o que Paulo disse quando apelou para a César (que trabalhava dentro do sistema opressivo da época) para que pudesse anunciar o Evangelho (Atos 25:1-28: 30). Os cristãos devem ser bons cidadãos, ativamente envolvidos no governo e na justiça social e devem se esforçar para ajudar os indefesos. Como o Reino de Cristo já foi inaugurado, devemos avançar através do evangelho e, COMO RESULTADO DO MESMO, a justiça social será obtida. A verdadeira conversão resulta sempre em um coração que ama ajudar o pobre. Somos embaixadores do Reino de Deus. Por meio do evangelho estamos plantando as sementes que Deus usa para criar cidadãos de seu Reino nos tempos presentes. Mas a principal questão que estamos lidando neste ensaio não é se os cristãos devem estar envolvidos no governo, no serviço ou em ajudar os pobres (todas essas coisas são muito importantes), mas se é oportuno criar uma teocracia ou não?

Só o Senhor tem a onisciência de julgar o certo e o errado com absoluta justiça e equidade. Por agora, enquanto servimos como bons cidadãos nos países que Deus nos colocou (Jeremias 29: 5-7), devemos ganhar os corações e mentes das pessoas através do evangelho o qual, por si só, irá fazer as pessoas desejosas de seguirem as leis de Deus.

Conclui-se que todas as pessoas, inclusive as cristãs, são corruptíveis e que por isso precisamos sempre estabelecer leis que limitam os poderes do governo para que nenhum grupo (incluindo o nosso) venha a tiranizar. Os atuais dominionistas seculares têm monopólio em relação ao poder. Secularistas e estatistas usam o poder do Estado para implementar sua visão de mundo e fazer com que todos vivam sob suas leis draconianas. Eles definem a religião de uma forma que exclui todos os pontos de vista exceto o deles próprio e, como tal, permitem que apenas suas ideologias sejam ensinadas nas escolas sem contestação. A verdadeira liberdade permite que todos os pontos de vista possam falar na praça pública e, então, as melhores ideias, mais persuasivas e razoáveis irão prevalecer na política. Mas devemos lembrar: Deus pode reunir pessoas para o seu reino sob qualquer tipo de governo. Alguns dos maiores avivamentos na história do mundo ocorreram sob os regimes mais inóspitos. Conhecendo a soberania de Deus, podemos, portanto, suportar leis injustas com paciência quando precisarmos. Dessa forma não temeremos homem ou lei alguma, pois o que eles podem fazer além de matar o nosso corpo? Nada.

Observações:

Apesar de a maioria dos cristãos acreditarem em algo parecido com o que tenho escrito aqui (talvez com algumas pequenas modificações), reconheço que existem pequenos grupos de cristãos pós-milenistas (conhecidos por teonomistas ou dominionistas) que acreditam que ainda hoje o magistrado civil tem o dever de executar (condenando à morte) aqueles que promovem publicamente uma falsa religião ou aqueles que tentam convencer alguém a se afastar do Deus de Abraão. Eu espero que o leitor nunca mais venha a pensar que escatologia não importa. Preste atençao e veja que há uma similaridade entre a teologia da libertação na esquerda e a teonomia (ou teologia do domínio) na direita. Ambas são escatologias pós-milenistas hiper-realizadas. Elas parecem ignorar o elemento mais básico do cristianismo: o fato de que Jesus sofreu a pena de morte por todos aqueles que crêem; e, por causa disso, os incrédulos, pelo momento, se beneficiam de sua morte. Nunca somos ensinados no NT a executar pessoas por causa de desonra a Deus. Pelo contrário, esta é a época de paciência do Senhor, onde Ele está reunindo pessoas para si mesmo enquanto nós proclamamos o evangelho a toda criatura. Convencer as pessoas a largar falsas crenças toma tempo e paciência e, sobretudo, necessita da Graça de Deus. Certamente levou muitos anos para que a Graça de Deus operasse em mim antes que eu viesse a Cristo. O que as pessoas fizeram na teocracia de Israel (onde Deus estava diretamente presente e muitas vezes dirigindo seu assuntos cotidianos) é um retrato do que vai acontecer quando Cristo voltar, quando Ele punir de forma justa a seus inimigos no lagar de sua ira. Pensar que, neste momento, este seja o nosso dever é um erro crítico e uma incompreensão da natureza do cristianismo verdadeiro.

A natureza político-centrica da teonomia é uma distração tão grande quanto a fixação que o Dispensacionalismo tem por Israel e não aproxima ninguém do evangelho de Jesus Cristo. Ambos são super-enfatizados. A escatologia dos Teonomistas deu a eles uma ênfase exagerada sobre a política deste mundo, quando o próprio Jesus não o fez. Eu frequentemente recebo alguns de seus boletins de notícias e a grande maioria dos seus artigos são sobre política (não sobre Bíblia ou teologia), mostrando a inconsistência ou problemas dos políticos liberais. Nada de errado em falar de política, mas ela parece ter sido mais enfatizada que o evangelho (pelo que tenho visto). E pelo foco dos artigos, você poderia pensar que as políticas liberais são o fim do mundo – como se o reino de Deus pudesse ser ferido pela forma de governo em que vivemos. Sim, eu concordo que devemos promover o governo mais piedoso possível… mas será que isso realmente faz diferença no plano eterno de Deus quando não somos bem-sucedidos? Eu acredito que a Teocracia só pode existir se Deus diretamente quiser impo-la e administrá-la. Caso contrário a palavra não tem sentido. Nada de teocracia sem Theo (Deus).


Autor: John Hendryx
Fonte: Do Christians Want a Theocratic or a Secularist State? Or Neither? – Monergism
Tradutor: Erving Ximendes

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