Falhas dolorosas no estudo recente sobre religião e moralidade

Um estudo recente, liderado por Jean Decety, tem sido usado para sugerir que indivíduos seculares são mais generosos e morais que indivíduos religiosos. Na verdade, a pesquisa sugere que a moralidade é basicamente uma parte de nossa biologia e que a religiãoparece nos afastar dela. Assim, ele argumenta que uma cosmovisão secular seria o melhor para nós. Finalmente, ele afirma que os cristãos evangélicos não irão aceitar seu trabalho, porque eles “não querem ciência”. Mas há sérios problemas metodológicos com o estudo de Decety, problemas que um cientista social treinado deveria reconhecer, independentemente de sua cosmovisão.

As dificuldades começam quando Decety e seus co-autores usam uma medida conhecida como “o jogo do ditador” para determinar o nível de altruísmo entre os indivíduos. No entanto, é altamente questionável que este jogo possa realmente avaliar o altruísmo. Esta ferramenta, ao invés, pode medir a obediência ao instrutor do jogo.

Os autores também queriam observar as questões de moralidade, examinando a natureza punitiva das crianças quando confrontados com ações malvadas. Os autores interpretam claramente que quanto mais as crianças sentiam misericórdia pelos culpados, mais morais elas eram. Mas isso é uma pergunta ética, e não científica. Será que é realmente mais moral evitar a punição em toda e qualquer circunstância? Na verdade, há um equilíbrio entre punição e misericórdia que todos nós devemos considerar. Alguns tendem para o lado de punição e alguns para a misericórdia, mas quase todos nós vamos punir e quase todos nós teremos misericórdia sob as condições certas. É moral punir um assassino em massa com uma multa de R$100? A maioria de nós consideraria isso uma injustiça. É moral punir uma multa de trânsito com uma pena de prisão de dez anos? A maioria de nós consideraria isso algo sem misericórdia.

Todos nós traçamos a linha de divisão entre misericórdia e justiça. Parece que os autores determinaram que o lugar adequado para desenhar a linha está mais perto da misericórdia. Eles julgam as crianças conforme onde eles desenharam a linha. Já que o próprio autor se identificou como secular, não é de se estranhar que as crianças seculares estejam mais próximos a essa linha do que as crianças religiosas.

Os autores apresentam suas opiniões sobre qaul deve ser o equilíbrio exato entre justiça e misericórdia, mas, uma vez que essa é uma questão ética, e não científica, esse estudo é insuficiente para avaliar se as crianças seculares possuem maior moralidade.

Eu também fiquei preocupado com a falta de certas variáveis de controle na pesquisa. Por exemplo, parece-me que o nível de escolaridade do pai seria um fator importante. Em muitos países indivíduos seculares tendem a ter níveis mais elevados de educação do que indivíduos religiosos. Seus filhos provavelmente foram para escolas diferentes, o que pode, por interações sociais, induzir as crianças a responderem de forma diferente ao jogo do ditador. (Repare que eu não disse “ser mais altruísta” já que não estou convencido de que o altruísmo possa ser medido pelo jogo do ditador). Pode ser que o nível de escolaridade dos pais, ao invés da laicidade, determinou os resultados desta pesquisa.

Eu também gostaria de ter visto um controle que incluísse a frequência a atividades religiosas (cultos,missas,etc), o gênero e a etnia. Um projeto de investigação sólida também teria incluído medidas qualitativas (tais como entrevistas e grupos de discussão) para ver se as crianças seculares entendem a moralidade de uma maneira diferente das crianças religiosas. A partir daí, os pesquisadores poderiam interpretar o significado de quaisquer diferenças quantitativas apresentada entre os dois grupos. Este estudo é desprovido de uma avaliação qualitativa, por isso é imprudente fazer as afirmações de Decety.

Raramente os cientistas sociais decidem uma questão de pesquisa com base em um único estudo; mas se eles fizessem, certamente não iriam com uma pesquisa que usa medições tão questionáveis.

Além disso, para entender qualquer pesquisa deve-se explorar o que os outros têm encontrado sobre o tema. Existem outras pesquisas que examinam a relação entre generosidade e religião. A religião, conforme tem sido mostrado, está correlacionada à vontade dos indivíduos de se voluntariar, de dar dinheiro para caridade e até mesmo de ser simpático.

Essa pesquisa foi focada em adultos ao invés de crianças, mas isso produz perguntas importantes. Se as crianças religiosas são tão egoístas e imorais, então como é que elas se tornam adultos generosos e amigáveis? Por outro lado, como é que as crianças seculares altruístas crescem e se tornam, em média, menos generosos e amáveis do que os seus homólogos religiosos? Os autores não parecem ter lido muito a literatura acerca desse tema. Se tivessem, então eles teriam abordado essas questões e teriam sido um pouco mais cauteloso ao fazer pronunciamentos sobre a superioridade secular na moralidade.

Eu sou um cristão evangélico e eu não aceito as afirmações de Decety acerca da generosidade e a religiosidade. Mas Decety está errado em afirmar que minha rejeição é devido ao fato de que eu “não quero ciência.” Dadas as fraquezas em seu estudo, que eu apenas esbocei, é mais correto dizer que eu não quero ciência ruim.


 

Autor: George Yancey
Traduzido e Adaptado por: Erving Ximendes

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s