Os profetas e suas mensagens – Obadias

Nessa série de posts iremos estudar (em ordem cronológica) cada um dos profetas do Antigo Testamento. Responderemos questões envolvendo o contexto histórico que eles estavam inseridos e os principais temas que suas mensagens tratavam. Paralelamente, também faremos uma “coleta” de comentários feitos ao longo dos séculos por grandes estudiosos das Escrituras, deixando claro as suas principais diferenças (e semelhanças) e quais os possíveis novos tratamentos oferecidos pelos estudiosos atuais. Espero eu que essa seja uma jornada que desperte o interesse do leitor em se aprofundar ainda mais nas Escrituras.

Comecemos por:

PROFETA Nº 1 – OBADIAS

Tema: Juízo sobre Edom

Aqui, a cidade de Edom já foi julgada por Deus e sua condenação é certa. Seu orgulho ao se alegrarem com os infortúnios que sobrevieram a Jerusalém foi o que trouxe a condenação imediata.

Data: 841 a.C ou 586 a.C.

Existe uma certa discussão em relação a datação do livro de Obadias graças à incerteza quanto a qual batalha o profeta pode estar se referindo. Os edomitas tanto tiveram participação significativa na invasão de Jerusalém promovida pelos filisteus e árabes durante o reinado de Jeorão, entre 848-841 a.C. (II Cr. 21:16-17) quanto na invasão promovida pela Babilônia entre 605-586 a.C. (II Rs 24-25). Caso o autor tenha profetizado a respeito da primeira invasão mencionada, este livro é a profecia escrita mais antiga do Antigo Testamento.

De maneira geral, mesmo depois de analisar os argumentos a favor das duas datas, ainda é muito difícil ter certeza de quando o livro foi escrito. Mas, primariamente, os argumentos para uma data mais recente parecem se basear na ideia de que o mal cometido contra Israel (por Edom) foi tão grande que apenas a destruição pela Babilônia, em 586 a.C., poderia se adequar à descrição dada por Obadias. No entanto, só porque uma destruição posterior tenha sido pior, isso não quer dizer que as destruições anteriores a essa também não tenham sido ruins.

Além disso, as passagens de Joel 2:32 e 3:3-6 parecem sugerir fortemente que Joel estava citando Obadias. Logo, o livro de Obadias deve ter sido escrito antes. Obviamente, esse argumento a favor da data mais antiga só se torna válido dependendo de quando foi escrito o livro de Joel.

Quem eram os edomitas?

Os edomitas eram descendentes de Esaú, irmão gêmeo de Jacó, e viviam em constante conflito com Israel. A dizer: rejeitaram o pedido de Moisés quando esse requisitou que Israel passasse por sua terra (Nm. 20:14-20), opuseram-se a Saul (1 Sm 14:47), a Davi (1Rs 11:14-17), a Salomão (1 Rs 11:14-25), a Josafá (2Cr 20:22) e ainda se rebelaram contra Jeorão (2Cr 21:28).

Quem era Obadias?

Além de seu nome, não sabemos nada acerca desse profeta. No início dos livros proféticos sempre temos alguma informação acompanhando o nome do autor (geralmente o nome do pai, de seus ancestrais e/ou sua cidade natal). Essas informações descritivas estão ausentes em apenas dois livros proféticos: Obadias e Malaquias.

Segundo Matthew Henry (traduzido livremente de Matthew Henry Commentary on the Whole Bible):

“As Escrituras não deixam claro quem era Obadias. Alguns dos antigos criam que ele era o mesmo Obadias que administrou a casa de Acabe (1 Reis 18:3.); em caso afirmativo, aquele que escondeu e alimentou os profetas recebeu, de fato, uma recompensa de profeta, quando o mesmo foi também feito um. Mas isso é uma conjectura que não tem base alguma. Esse Obadias, provavelmente, é mais recente. Alguns pensam que ele foi contemporâneo de Oséias, Joel, e Amós; já outros pensam que ele viveu na época da destruição de Jerusalém, quando os filhos de Edom triunfaram como bárbaros. […]Provavelmente ele foi inspirado a falar muito mais , mas isso é tudo o que ele foi inspirado a escrever; e tudo o que ele escreve é a respeito de Edom. É uma fantasia tola da parte de alguns judeus crer que, porque ele profetiza somente a respeito de Edom, então ele próprio era um edomita por nascimento, mas um prosélito da religião judaica.”

H.A. Ironside nos diz:

“Quem Obadias era, onde ele nasceu, de que tribo e família em Israel ele era, qual sua ocupação e qual o momento exato em que ele viveu são questões que Deus não quis nos responder. […] Vários Obadias são mencionados brevemente em I e II Crônicas; mas se algum deles é idêntico ao profeta que estamos tratando, não temos meios de determinar. Mas isso não é de alguma maneira importante. É com a mensagem pregada, não com o seu portador, que Deus quer que nos ocupemos.”

Estudando o texto

Versos 1-4: O caráter inescapável do castigo de Edom

Em termos históricos, os edomitas se assentaram no monte Seir, região montanhosa do Mar Morto, desde o século XII a.C. ao século VI a.C., e Sela (Petra) foi considerada o orgulho de Edom. O terreno é tão abrupto que só é possível chegar ao vale onde Petra está localizada passando por um desfiladeiro estreito guardado por paredes de rocha que tem entre 60 e 75 metros de altura (veja a foto abaixo). Nos versos 1-4, vemos Deus se referindo a Edom como um povo “que habita nas fendas das rochas, numa alta morada” (Ob 3) e proferindo uma condenação inevitável contra eles (Ob 4).

(Entrada para o desfiladeiro estreito que dava para a cidade de Petra. Esse mesmo local foi usado como cenário para as gravações de “Indiana Jones e a Última Cruzada”)

Quando Deus tem uma obra sangrenta a fazer contra os inimigos de Seu povo, Ele vai achar e guiar as mãos e corações para fazê-la. Edom pergunta, pelo orgulho de seu coração, quem poderá os deitar por terra? Fala com confiança  em sua própria força, em desafio ao próprio Deus, como se Seu Juízo não fosse capaz de destruí-los. A segurança carnal é um pecado que facilmente engana os homens em seus dias de poder, prosperidade e sucesso.

Note, (1) aqueles que pensam muito bem de si mesmos estão propensos a fantasiar que os outros também pensem assim deles; mas, quando eles vêm que essas mesmas pessoas estão lançando juízo sobre eles, eles encontram-se enganados, e, assim, o orgulho acaba os matando. (2) Deus pode facilmente rebaixar aqueles que têm engrandecido e exaltado a si mesmos, e sempre vai achar uma maneira de fazê-lo, pois Ele resiste aos soberbos; e muitas vezes vemos pequenos e muito desprezados aqueles que antes pareciam muito grandes e que foram admirados. (Matthew Henry Commentary on the Whole Bible)

Versos 5-9: O caráter absoluto do castigo de Edom

Aqui o castigo absoluto de Edom é inequivocamente expresso. Ainda que os ladrões costumassem levar apenas as coisas valiosas e ainda que os vindimadores sempre deixassem cachos nas videiras, Edom seria completamente destruída. Seus aliados lhe fariam emboscadas. Seu reconhecimento por formar sábios em Temã (Elifaz, um dos amigos de Jó, tinha Temã como pátria, Jó 2:11) não os ajudaria em nada.

Aqui, o profeta expressa a maneira que Deus puniria os edomitas […]. O profeta mostra agora que está no poder de Deus mudar as mentes dos homens, pois, aqueles que eram seus aliados de repente foram inflamados com raiva, e resolveram partir para destruir os edomitas. Havendo, pois, que consideravam que os assírios não só fossem como um escudo para eles, mas também como se fossem uma defesa contra o próprio Deus, o profeta aqui declara que uma vez que o propósito de Deus era puni-los, não haveria necessidade de enviar a distância os agentes ou instrumentos para executar Sua vingança; pois Ele iria armar os próprios assírios e caldeus, na mesma medida em que poderia transformar os corações dos homens conforme quisesse. Vemos agora o significado do que o profeta queria dizer; pois ele aqui expõe a vã confiança dos edomitas, para que eles não se endurecem por terem sido fortificados através de confederações e por terem amigos poderosos, pois o Senhor iria transformar amigos em inimigos. (Calvin’s Commentary on the Bible)

Versos 10-14: A condenação de Edom por sua indiferença, falta de fraternidade e agressividade

Edom era culpável de vários pecados, mas nenhum deles apresentou uma conduta tão inatural e um espírito tão rancoroso quanto o tratamento a seu irmão Jacó. Eles não eram apenas meros espectadores das calamidades de Israel, mas intensivamente opostos aos escolhidos de Deus.  A progressão dos crimes de Edom é detalhada nos versos: apresentaram uma atitude indiferente a Israel; violaram um dever social e agiram com uma crueldade arraigada, alegrando-se pelo cativeiro dos filhos de Judá; participaram, agora ativamente, dos saques da cidade; e, por fim, construíram barreiras nas estradas para impedir que o povo judeu fugisse.

Interessantemente, John Gill (que pregou na mesma igreja que Spurgeon cem anos antes dele) relacionou esses versos com a perseguição sofrida pelos protestantes por parte dos católicos romanos:

Eles os calavam em suas casas, ou bloqueavam todas as avenidas e caminhos pelos quais eles [os judeus] pudessem escapar, mesmo que os que permanecessem fossem mortos ou levados em cativeiro; esses, caindo nas mãos dos edomitas, foram cortados e outros, entregues nas mãos dos caldeus. Para entender mais sobre a alegria e júbilo dos edomitas místicos, ou seja, dos papistas (falsos irmãos e anticristãos) com a destruição das testemunhas fiéis e dos verdadeiros cristãos, veja Apocalipse 11:7-10.

Em “A Collection of Sermons and Tracts Volume I, Sermon 2“, ele explica sua posição:

Agora, observemos que essa profecia se refere a um tempo em que […] Judeus e Edomitas estavam misturados; os últimos, ao menos alguns deles, abraçaram a religião judaica, e, portanto, tinham conhecimento acerca do Messias e sua vinda. […] Devemos aindar observar que, Esaú e Edom podem ser considerados como um tipo de anticristo, os Edomistas representam o partido anticristão. Nos é dito que alguns Hebreus liam Roma ou Duma aqui, e, se supõe que o Império Romano estivesse sendo designado. É certo que nada é mais sensato do que chamar o Império Romano (e a própria Roma) de Edom, e os Romanos (ou Papistas) de Edomitas.

É certo que hoje nenhum estudioso da Bíblia tentaria retirar essa mensagem a partir desses versos. No entanto, devemos compreender que John Gill faz aqui uma hipérbole que relaciona a situação de seu tempo a uma passagem bíblica (coisa que muitos pastores atuais fazem). Apesar disso, nossos estudos das Escrituras não devem ser feitos com base em hipérboles ou em aplicações contemporâneas, mas sim numa séria exegese do texto em questão.

Verso 15: A época da destruição de Edom

Edom é usado como um tipo de todas as nações que são inimigas do povo de Deus. O universo em que vivemos é um universo governado por Leis Morais estabelecidas pelo próprio Deus e Ele, um dia, irá julgar todas as coisas. Edom, no entanto, não precisou aguardar um período futuro pois, para eles, o castigo aqui descrito já foi cumprido na história.

Segundo Calvino, os acontecimentos que envolvem tudo o que é relatado no livro de Obadias estão intimamente relacionados à maneira de Deus julgar Seu povo e as nações inimigas:

Parece, no entanto, que aqui se encontra uma comparação implícita entre o castigo do povo eleito e a punição que seria infligida sobre as outras nações. Quando os edomitas viram que os reinos de Israel e de Judá haviam sido humilhados, eles acharam que os filhos de Abraão foram assim punidos porque haviam desprezado a seus próprios profetas, e porque eles (os israelitas) haviam se tornado imorais e perversos ao extremo. Assim, os edomitas estariam isentando os outros e a si mesmos da punição. Porém, agora o Profeta declara que Deus havia sido o juiz de Seu povo, mas que Ele também é o juiz de todo o mundo, e que essa verdade ficaria evidente a todos muito em breve. (Calvin’s Commentary on Obadiah, Part 4)

Versos 16-21: A natureza da destruição

É valioso mencionar o fato de que hoje não existe sequer um sobrevivente dos outrora poderosos edomitas. A natureza da destruição foi completa. No entanto, se prestarmos mais atenção às passagens, podemos ver que existem outras mensagens que podemos retirar do texto. O verso 21 fala de salvadores (ou libertadores) que subiriam ao Monte Sião. Independentemente de o leitor acreditar na Teologia do Pacto ou no Dispensacionalismo, o fato é que o verso 21 fala acerca de salvadores humanos e, com isso, pode-se construir um bom argumento contra os judeus que rejeitam a Jesus como Messias. Conforme João Calvino bem expressou:

Esse é um argumento muito forte contra os judeus. Eles confessam que o Messias seria o Redentor de seu povo mas eles o atribuem esse ofício de uma maneira bem geral, como eles o fazem para Davi e outros reis. No entanto, certamente parece, a partir dessa passagem, que o Messias não seria de uma classe comum, pois os salvadores estariam como ministros sob o seu comando. E isso os judeus não se atrevem a negar, embora possam resmungar: pois seria absurdo que o Messias fosse apenas um dos salvadores. Desde então, ele foi enviado para ser Redentor e Salvador de uma maneira diferente dos outros, pode-se concluir portanto que ele não é um mero homem, mas que ele é o autor da salvação. Na realidade, seria muito fácil perguntar: “Por que vocês nos falam de muitos redentores? Não são vocês que esperam somente um Salvador? Se Deus vai designar esse ofício a muitos de maneira igual, por que há tantas promessas gloriosas a respeito do Messias? Por que somos sempre lembrados apenas dele? Por que ele sempre aparece sozinho como o fundamento de nossa salvação?” Portanto, parece certo que Cristo deve ser distinguido de todos os outros, e que os outros são salvadores sob a sua autoridade; e tais eram os apóstolos, e tais são todos atualmente, que Deus emprega para defender e apoiar a Sua Igreja. (Calvin’s Commentary on the Bible)

Conclusão

O livro de Obadias, de maneira geral, nos dá informações valiosas sobre a história de Israel independentemente de sua datação. A maneira que Deus julga o Seu povo e a maneira como Ele também julga as outras nações serve de grande alerta tanto para o mundo quanto para a Igreja, além de nos falar acerca da natureza do próprio Deus. Ele não é (conforme muitos “teólogos” ardentemente desejam) um Papai Noel que releva as maldades dos seres humanos nem muito menos é um deus impotente que apenas recolhe os caquinhos que restam das tragédias causadas pelo homem. Ele, na verdade, dirige a história do mundo. Ele é equilibradamente justo e misericordioso e Ele, brevemente, trará juízo sobre todos os povos e nações. No Dia do Senhor, feliz será aquele que depositou sua fé no suficiente sacrifício de Cristo.

Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano.
Salmos 32:1,2

Autor: Erving Ximendes

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