Perspectivas sobre a predestinação – Barry Hofstetter

Esboço

Recentemente, enquanto eu pregava aqui pela manhã, dei duas mensagens sobre a primeira parte do capítulo 1 de Efésios (como um material de caráter introdutório). Nós olhamos as implicações do cumprimento de Paulo, e também estudamos a existência e a natureza das bênçãos que Deus concede ao seu povo. Agora, eu gostaria que você pensasse sobre cada uma dessas bênçãos individualmente. O que elas querem dizer? Como elas estão relacionados a nós, e como estão relacionadas aos grandes temas que a Bíblia trata? A primeira delas, que o próprio texto naturalmente nos leva, é um assunto que até mesmo Calvino abordou com certa apreensão – o tema da predestinação. Em alguns círculos teológicos (apesar de ser verdadeiramente um conceito bíblico), é um anátema até mesmo mencionar o assunto. Em outros círculos, tais como o nosso, é uma marca orgulhosa de distinção (o presbiterianismo ortodoxo proclama com orgulho a crença na soberania de Deus e a sua graça predestinadora). A reação emocional é bastante intensa, é uma daquelas coisas que as pessoas parecem  amar ou odiar, sem meios termos. No entanto, essa doutrina, como qualquer outra que é especificamente registrada na Bíblia, não está registrada para que possamos ter um divisor de águas emocional ou doutrinário, mas para o conforto e a edificação da igreja. Isso é algo que sempre foi reconhecido pelas maiores mentes na igreja, como Agostinho e Calvino. João Calvino é um exemplo interessante, porque podemos ver como ele cresce no conhecimento do assunto. Nas primeiras edições das Institutas, ele incluiu a predestinação no Livro 1, no qual ele descreve sua doutrina sobre Deus. Nas edições posteriores, ele moveu a menção da doutrina da Eleição para os capítulos posteriores que tratavam da igreja, e nos alerta que a doutrina não deve ser considerada levianamente.

Esta manhã, queremos tratar do assunto da predestinação como uma das bênçãos de Deus, e, diria eu, como a principal bênção pela qual todas as outras parecem estar relacionadas, de uma maneira ou deoutra. Para esse fim, eu quero que consideremos 1) o que a predestinação não é, 2) o que a predestinação é, e 3) para quê a predestinação serve. Não tenho a intenção de em apenas um sermão tratar de forma completa uma teologia que já foi tão bem tratada em diversos livros. Mas quero pelo menos introduzir o assunto a partir dos comentários de Paulo aqui.

O que a predestinação não é

Por que é que as pessoas têm uma reação emocional tão forte contra o que nos parece ser uma doutrina tão francamente bíblica? Minha mãe cresceu em uma igreja presbiteriana em 1930, mas a deixou por causa do que ela chamou de “a doutrina da condenação infantil.” Um tele-evangelista famoso é citado ao dizer que Calvino tinha enviado mais pessoas para o inferno com base em “sua” doutrina da predestinação do que qualquer outra pessoa na história da igreja. Deixe-me sugerir que quando as pessoas têm reações como essas, pode haver mais do que uma razão para isso:

1) Pode ser o caso de que a pessoa simplesmente não conheça nada da graça de Deus, e rejeitam a predestinação simplesmente porque elas odeiam qualquer idéia de Deus estar no controle.

2) Uma pessoa pode não entender a doutrina, e as pessoas, em geral, são relutantes em aceitar o que elas não podem compreender. Por compreender, eu não pretendo sugerir algum tipo de compreensão total (a Bíblia não resolve todas as tensões relacionadas à predestinação); há um elemento de mistério, e nós temos que parar onde a Bíblia pára, e se especularmos que seja por nossa própria conta e risco. Mas é possível entender muito mais sobre o assunto do que a maioria das pessoas pensam. Como corolário por não entender, as pessoas freqüentemente têm um conceito errado em sua mente quando ouvem o termo predestinação. . .
3) Muitas vezes, quando as pessoas rejeitam a doutrina, elas fazem isso para tentar proteger uma verdade ou idéia genuína que lhes parece mais importante ou mais fundamental do que a verdade que elas estão se questionando. Para as pessoas que rejeitam a predestinação, isso muitas vezes significa o livre arbítrio do ser humano, ou eles simplesmente desejam salientar que Deus não pode e nem, de fato, toma decisões arbitrárias.

É com estas duas últimas que estamos preocupados. Quais são alguns dos mal-entendidos mais comuns acerca da predestinação?

Deus é arbitrário

Muitas pessoas sentem que a predestinação retrata Deus como um déspota arbitrário que usa sorteio para salvar as pessoas. Ele escreve o nome de todo mundo em folhas de papel separadas e joga os papéis nos degraus de uma escada. Aqueles que estiverem nos degraus do topo serão salvos, aqueles que ficam nos degraus de baixo não são.

Agora, deixe-me perguntar-lhe, seria essa uma caracterização fiel de tudo que sabemos sobre Deus a partir das Escrituras? A predestinação Bíblica flui do caráter de Deus, e está enraizada em sua natureza e atributos: ela não pode ser separada. Se, portanto, podemos provar que Deus não é arbitrário na natureza, podemos provar que a predestinação não é arbitrária e não revela nada arbitrário sobre Deus.

Existe alguma coisa em nossa passagem atual, que indique que Deus seja arbitrário? De modo algum! Todo o tenor da passagem está cheio de linguagem acerca do propósito de Deus, e de Sua boa vontade. É verdade que Deus faz o que quer, mas não há nada na passagem que indica que o que Deus quer não seja bom. De fato, quando se fala da vontade de Deus, a palavra no original implica fortemente o fato de que essa vontade é boa. Vemos que Deus tem um plano e um propósito que incluem colocar todo o universo sob a liderança de Jesus Cristo. A bondade da vontade de Deus e o fato de que Ele tem um plano desde o início dos tempos (plano esse que relaciona todos os Seus atos individuais) mostram que Deus não é nada arbitrário. Muito pelo contrário.

O restante das Escrituras testifica isso de forma abundante. Vez após vez, as Escrituras falam de confiabilidade de Deus, de Sua bondade e Sua fidelidade. Será que qualquer pessoa que apresentasse essas qualidades fariam decisões arbitrárias? Seriam essas as qualidades de uma pessoa caprichosa? Muito pelo contrário, se formos partir do testemunho bíblico do caráter de Deus, então a predestinação não é arbitrária, mas inseparável da bondade, conhecimento e sabedoria de Deus. As escolhas que Deus faz na predestinação são simplesmente as melhores escolhas possíveis, e estão todas conectadas aos propósitos que Ele teve desde toda a eternidade. Nisto, assim como em todas as coisas, certamente podemos confiar em Deus. . .

Determinismo Filosófico, Livre Arbítrio

Estreitamente ligada a isto está a tendência de remover a predestinação do contexto do caráter e dos propósitos de Deus. Quando fazemos isso, não temos mais a predestinação bíblica, mas alguma outra coisa que criamos, e as pessoas que, em seguida, contestam esse tipo de predestinação estão argumentando contra algo que é totalmente diferente do que a Bíblia ensina. Elas vêem um princípio de determinismo, em que nenhuma ação é livre, e elas vêem um universo em que não há justiça, porque até mesmo a melhor e mais pura pessoa pode ser condenada a uma eternidade no inferno, se Deus assim o determinar.

1) Na Escritura, o contexto da predestinação é sempre o caráter gracioso de Deus em salvar um povo para Si mesmo. Mas nunca chega à conclusão de que, portanto, toda ação é predeterminada de tal forma que os homens não têm qualquer responsabilidade. Em outras palavras, a nossa integridade como seres humanos não é destruída pela predestinação de Deus, mas é, ao invés disso, realizada por causa dela. Nossas escolhas são escolhas reais e têm significado; nós amamos porque Deus nos amou primeiro, mas ainda assim somos nós que amamos. Como precisamente essas coisas se relacionam, as Escrituras não chegam a nos dizer, mas a) sabemos que elas estão relacionadas e b) sabemos que Deus tem a resposta para esta pergunta, e como dissemos acima, podemos confiar nEle.

2) Eu realmente respondi a ambas as acusações, mas deixe-me enfatizar que, quando removemos a idéia da predestinação partindo da pessoa e do caráter de Deus, ficamos com algo muito frio e muito duro, um princípio impessoal e verdadeiramente arbitrário, como um computador que seleciona números aleatoriamente. Mas a Escritura nunca faz tal separação. Muito pelo contrário, a predestinação está relacionada à natureza pessoal de Deus, que nos ama e nos escolheu desde toda a eternidade, e este fato é a alegria absoluta para todo aquele que sabe disso. . .

O que a predestinação é

Com efeito, se estas são algumas das coisas que a predestinação não é, então o que ela é? Em grande parte, se invertermos os negativos nos equívocos mencionados acima, começamos a ter alguma idéia do que a predestinação é realmente. Deixe-me aventurar, então, numa definição com base neste texto, e também apoiada por outras passagens das Escrituras:

A predestinação é o ato gracioso de Deus pelo qual Ele determina salvar um povo para si mesmo.

Em outras palavras, na Bíblia, a predestinação está sempre relacionada com a obra de Deus em Cristo sob os termos de levar todo um povo a conhecê-lo e servi-lo. Agora, é verdade, e nós sabemos isso de muitos versos das Escrituras, que Deus decretou todas as coisas que acontecem. Mas esta palavra específica que é traduzida como “predestinado” é sempre usada no contexto do propósito de Deus em salvar Seu povo.

O que aprendemos sobre a predestinação nesta passagem? Na última vez que eu havia falado aqui, enfatizei o fato de que as bênçãos que Deus nos dá são as bênçãos que Ele tem prazer em nos dar, tanto quanto um pai gosta de dar presentes a uma criança por amar ver a sua reação ao abrir os presentes. O que é enfatizado aqui é o fato de que essa bênção foi preparada para nós “antes da fundação (criação) do mundo”. Em outras palavras, muito antes de nascermos, antes mesmo de o que nós conhecemos como “mundo” existisse, Deus já sabia de nós e havia determinado nos salvar, e o que Deus determinou vai acontecer. Não há absolutamente nada que sugira que nossa eleição dependeu de Deus prevendo a nossa vontade de ser salvo, como alguns ensinam. Em vez disso, simplesmente vemos que Deus já havia “escolhido” e “pré-determinado” aqueles que seriam o seu povo.

Mencionei mais cedo a relação do caráter de Deus à Sua vontade eletiva. Aqui temos uma pista muito importante sobre como esse caráter se relaciona, as palavras “em amor”. Agora, diferentes versões podem pontuar de maneira distintas aqui, mas nos manuscritos originais, não havia sinais de pontuação, e essas duas palavras estão na divisão entre as duas cláusulas. Paulo não está tentando fazer distinções técnicas precisas aqui quando ele fala de “eleição” e “predestinação”; ao invés disso, ele usa uma variedade de vocabulários para nos mostrar o quão ricas são as bênçãos de Deus. As palavras “em amor”, portanto, modificam tanto o que vem antes delas e o que vem depois; Deus nos escolheu “em amor” e e sua predestinação é também “em amor”.

Se tentarmos caracterizar a predestinação de qualquer outra maneira deixando fora as palavras “em amor”, perdemos de vista toda a questão. O que podemos dizer aqui é que o “amor” é uma qualidade de Deus, e “predestinação” é a ação concreta que Deus faz. Quanto Deus ama o mundo? Ele enviou o seu Filho unigênito. Por que Ele enviou o seu Filho? Para demonstrar na prática o amor, trazendo o perdão do pecado e da culpa através do sacríficio oferecido por Jesus Cristo de uma vez por todas, e para levar todos nós a uma nova vida através ressurreição de Jesus Cristo.

Como isso faz você se sentir? O fato de que Deus, desde toda a eternidade, escolheu você porque o ama? Isso, na verdade, funciona a nível individual porque a Igreja é composta de indivíduos, e você não pode predestinar um grupo sem predestinar também os indivíduos que compõem o grupo. Eu sei como isso deve fazer você se sentir: absolutamente seguro nas mãos de Jesus, porque quem o Pai lhe dá, de maneira alguma o lançará fora, e ninguém pode arrebatá-lo de Sua mão. Deixe-me sugerir algo aqui. Muitas vezes surge a questão surge: Como eu sei que eu sou um dos eleitos? Como eu sei que eu fui predestinado a uma eternidade de plenitude e alegria na presença do Pai? A coisa errada a se fazer é multilar a própria mente pensando nisso. A coisa certa a fazer é procurar conhecer o Senhor Jesus Cristo e as verdades relacionadas a Ele nas Escrituras. Se o que estamos discutindo nesta manhã faz você se sentir desconfortável ou até mesmo com raiva, então talvez você deva dar uma segunda olhada e perguntar-se a si mesmos se você realmente é um cristão. Use esse sentimento como um aviso de que algo pode estar errado, da mesma forma que a dor serve para avisar que algo está errado com nosso corpo, e que precisa de atenção. E a atenção que você deve dar não deve ser dedicada a si mesmo e a seus sentimentos, mas ao Senhor Jesus Cristo, buscando sua Face, procurando conhecê-lo e servi-lo. Sua atitude deve ser algo do tipo: “mesmo se eu descobrisse que estou predestinado ao inferno e à condenação, ainda assim eu reconheceria o Senhorio e a Justiça de Jesus Cristo”. Permitam-me ainda sugerir que, se você tem essa atitude, é prova quase incontestável de que você não tem que se preocupar com a sua própria eleição.

Para quê a predestinação serve?

Paulo nos diz que as bênçãos de Deus são concedidas para que possamos ser santos. Mas predestinação tem algo especial. Nós já mencionamos em nossa definição de que a predestinação significa que Deus está salvando um povo para si mesmo. Mas Paulo usa uma variedade de termos e imagens que enriquecem a nossa compreensão. O termo é “adoção”.

Agora, irei uma história sobre a minha esposa. Seu irmão mais novo é adotado, e como muitos irmãos mais novos, ele ocasionalmente gostava de provocar sua irmã mais velha. Ele costumava dizer: “Ha-ha! A mamãe e o papai tiveram que ficar com você, mas eles ESCOLHERAM a mim.” É verdade, isso sai de boca de criança. . . Mesmo pelos padrões de hoje, isto capta uma verdade muito importante. Mesmo com os procedimentos médicos mais avançados, ainda hoje há crianças indesejadas. Mas uma criança adotada é, quase por definição, uma criança desejada. Os pais se esforçam muito para poder adotar uma criança, preenchendo a papelada e esperando por anos. Eles realmente devem querer aquela criança, já que, por ela, passam por tantos problemas!

Mas o vocabulário de adoção aqui é ainda mais rico. Frequentemente, na antiguidade, adultos eram adotados por um casal sem filhos para que eles pudessem transmitir sua riqueza e herança. Normalmente, essa pessoa era um amigo de confiança ou um servo. Isto é o que está por trás da queixa de Abrão a Deus que o damasceno Eliézer herdaria sua propriedade. A reivindicação de poder proferida por Otaviano na Roma antiga foi baseada no fato de que ele era o herdeiro de Júlio César, e que tudo o que tinha pertencido a César, agora pertencia a ele. Esta é a imagem que está por trás do termo aqui: tornamo-nos, com efeito, herdeiros a quem Deus prometeu as maiores riquezas por meio de Cristo. Temos o estatuto de filhos e herdeiros na família, e recebemos as riquezas da graça de Deus abundantemente derramada sobre nós.

Um dos maiores dons dados como resultado desta predestinação é encontrada nos versos 11-15, versos esses que merecem muito mais atenção do que eu estou prestes a dar. Deixe-me simplesmente destacar aqui que há uma progressão real, culminando no dom do Espírito Santo para o povo de Deus.

1) Observe novamente a referência trinitariana. Deus, o Pai, predestinou nossa salvação através de Jesus Cristo, o Filho, e nós temos a garantia dessa salvação pela presença do Espírito Santo.

2) Nós realmente temos uma garantia. Se Deus determinou desde antes da criação do mundo que seríamos Seus filhos, você acha que Ele nos abandonaria? Nosso Deus conhece o fim desde o princípio, e Ele sempre realiza Seus propósitos, não importa como as coisas se parecem para nós, aqui, no meio nas sombras. E a maneira pela qual Deus nos preserva e garante nossa herança não é por qualquer método humano, mas através de um presente que não só tem mais valor que um rei, mas que tem mais valor do que muitos reinos. Na verdade, tem maior valor do que o mundo inteiro, o selo, o prometido Espírito Santo.

Cristão, se até agora você não está imensamente encorajado, então você deve gastar muito tempo pensando profundamente sobre essas coisas. Certamente, nesta manhã não respondi todas as perguntas levantadas em torno da predestinação, mas temos visto que a idéia é muito mais rica e muito mais profunda do que é retratada. Não é simplesmente sobre quem entra no Céu e quem não; é sobre o caráter e o amor de Deus. Não é simplesmente sobre doutrina, mas sobre o amor de Deus para nós, e sobre todos os planos que Deus tem e em que Ele nos inclui como parte integrante. E vimos que a razão pela qual Deus inclui esta verdade é para incentivar-nos e para revelar-nos o verdadeiro fundamento do nosso relacionamento com Ele.

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Sermão pregado em 1998 por Barry Hofstetter.
Tradução feita por Erving Ximendes.

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